Adoptando – desde os primórdios da “Carreira da Índia” – um “padrão-base”, os navios partiam do Tejo geralmente entre o início de Março e meados de Abril, de forma a assegurar a passagem do Cabo da Boa Esperança até ao mês de Julho, visando beneficiar dos ventos da monção de sudoeste da costa oriental de África, mais propícios em Agosto/Setembro, compreendendo esta rota as seguintes “etapas” essenciais:

– uma primeira, de Lisboa a Cabo Verde, em “linha recta”, com boas condições de navegação, ainda com aprovisionamentos frescos;

– seguia-se uma fase complexa, a da travessia das calmas águas equatoriais, que levava por vezes a que os navios permanecessem sem avançar durante semanas, submetidos a um calor tórrido, que contribuía decisivamente para a deterioração dos alimentos a bordo;

– iniciava-se então, numa inflexão para sudoeste, a “volta do mar”, uma rota em arco, visando contornar os ventos alísios do Atlântico Sul, aproximando-se mesmo da costa brasileira, a sul do Cabo de Santo Agostinho;

– a partir daí, navegando para sueste, em direcção ao Cabo da Boa Esperança, aproximando-se às ilhas de Tristão da Cunha, antes de vencer o “Adamastor”, numa dobragem do Cabo, que tantos naufrágios provocaria;

– dobrado o “Cabo das Tormentas”, então já da “Boa Esperança”, o que deveria ocorrer até Julho – e, depois de escala em Moçambique –, a segunda parte da viagem era efectuada “por dentro”, pelo canal de Moçambique, entre a costa africana e a ilha de Madagáscar (então denominada de S. Lourenço) – caso houvesse atrasos, seria necessário adoptar a rota “por fora”, a leste de Madagáscar, através do Índico Central (sem possibilidade de escalas);

– depois de passar pelas ilhas Comoros, a norte de Madagáscar, o percurso, numa inflexão para nordeste, era novamente em “linha recta”, até à Índia (portos de Goa ou Cochim), também já com vento a favor (embora com os perigos decorrentes de baixios e rochedos inicialmente mal conhecidos), onde as expedições chegavam normalmente em Agosto/Setembro.

O regresso (“tornaviagem”), tinha como data ideal de partida o final do mês de Dezembro – após cerca de 3 meses de escala na Índia –, começando por rumar à costa da Somália, atravessando (em sentido inverso ao da ida), o canal de Moçambique (também nesta situação, em caso de atrasos, tinha que ser adoptada a rota “por fora”, com opção pela “carreira velha” ou pela “carreira nova”). Dobrado o Cabo da Boa Esperança, os navios beneficiavam dos ventos favoráveis, rumando a Cabo Verde, passando ao largo ou fazendo escala em Santa Helena e nas ilhas Ascensão (principalmente para fazer “aguada”, ou seja, o reabastecimento em água potável). Em Cabo Verde iniciavam nova “volta ao largo”, em arco, rumo aos Açores, a partir de onde se dirigiam então, numa etapa final, praticamente em “linha recta”, para Lisboa, onde chegavam geralmente em Julho.

Bibliografia consultada:

– “A Carreira da Índia”, Francisco Contente Domingues

– “Ascensão e declínio da Carreira da Índia (Séculos XV-XVIII)”, Paulo J. A. Guinote

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