Janeiro 2007


Lopo Soares capitam-mór

Anno de 1504

Loppo Soares capitão <mor> de treze naos partio a vinte e dous de Abril. Capitães: Pero de Mendoça, Leonel Coutinho, Tristão da Silva, Loppo Mendes de Vasconsellos, Loppo de Abreu da Ilha, Philipe de Castro, Pedro Affonso de Aguiar, Vasco da Silveira, Manoel Telles Barreto, Afonso Lopez da Costa, Vasco Carvalho, Pero Dinis <de Setuval> e deixou por capitão.mor do mar Manoel Telles de Vasconcellos, que foi o terçeiro capitão-mor do mar da India.


Pedro Affonso de Aguiar com huma tormenta recebeu algum damno, por abalroar com a náo de Affonso Lopes da Costa.

(Leitura e anotações de Maria Hermínia Maldonado, obra publicada pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

CAPÍTULO VII

No qual se mostram cinco razões porque o senhor infante foi movido de mandar buscar as terras de Guiné

Então imaginamos que sabemos alguma coisa quando conhecemos o seu fazedor, e a fim para que ele fez tal obra. E pois que nos capítulos ante destes temos posto o senhor infante por principal obrador destas coisas, dando-nos dele aquele claro conhecimento que podemos, bem é que em este presente capítulo saibamos a fim porque as fez. E vós deveis bem de notar que a magnanimidade deste príncipe, por um natural constrangimento, o chamava sempre para começar e acabar grandes feitos, por cuja razão depois da tomada de Ceuta sempre trouxe continuadamente navios armados contra os infiéis; e porque ele tinha vontade de saber a terra que ia além das ilhas Canárias, e de um cabo que se chamava Bojador, porque até aquele tempo, nem por escrita nem por memórias de nenhuns homens, nunca foi sabido determinadamente a qualidade da terra que ia além do dito cabo […].

E porque o dito senhor quis disto saber a verdade parecendo-lhe que ele ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber; nenhuns mareantes nem mercadores nunca se disso intrometeriam, porque claro está que nunca nenhum destes se trabalham de navegar se não para donde conhecimento esperam proveito; e vendo outrossim com nenhum outro príncipe se trabalhava disto, mandou ele contra aquelas partes seus navios, por haver de tudo manifesta certidão, movendo-se a isso por serviço de Deus e d’el rei D. Duarte, seu senhor e irmão, que naquele tempo reinava. E esta até que foi a primeira razão do seu movimento.

E a segunda foi porque considerou que achando-se naquelas terras alguma povoação de Cristãos, ou alguns tais portos que sem perigo pudessem navegar que se poderiam para estes reinos trazer muitas mercadorias, que se haveriam de bom mercado, segunda razão, pois com eles não tratavam outras pessoas destas partes, nem doutras nenhumas que sabidas fossem; e que isso mesmo levariam para lá das que estes reinos houvessem, cujo tráfego trazeria grande proveito aos naturais.

A terceira razão foi porque se dizia que o poderio dos mouros daquela terra de África era muito maior do que comummente se pensava, e que não havia entre eles Cristãos nem outra alguma geração. E porque todo sisudo, por natural prudência, é constrangido a querer saber o poder do seu inimigo, trabalhou-se o dito senhor de o mandar saber; para determinadamente conhecer até onde chegava o poder daqueles infiéis.

A quarta razão foi porque de XXXI anos que havia guerreava os Mouros, nunca achou rei Cristão nem senhor de fora dessa terra que por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo o quisesse à dita guerra ajudar. Queria saber se se achariam em aquelas partes alguns príncipes Cristãos em que a Caridade e Amor de Cristo fosse tão esforçada que o quisessem ajudar contra aqueles inimigos da Fé.

A quinta razão foi o grande desejo que havia de acrescentar em a santa fé do nosso senhor Jesus Cristo, o trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar, conhecendo que todo o mistério da encarnação, morte e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo foi obrado a este fim, por salvação das almas perdidas, as quais o dito senhor queria, por seus trabalhos e despesas, trazer ao verdadeiro caminho, conhecendo que se não podia ao Senhor fazer maior oferta […]

“Crónica do Descobrimento e Conquista de Guiné”, Gomes Eanes de Zurara

Bibliografia consultada:

– “História de Portugal” (coordenação de José Hermano Saraiva), Vol. III – “A Epopeia dos Descobrimentos – A Dinastia de Avis e a Expansão Ultramarina”, por Newton de Macedo, edição QuidNovi, 2004

Bússola

(via http://www.dgidc.min-edu.pt/inovbasic/proj/actividades/historias/india/pagina8.htm)

Piloto português na Índia (século XVI). Acompanhou D. Álvaro de Castro a Diu, ficando encarregue de importante missão junto do vice-rei D. João de Castro. Expedito e ousado, capitaneou a caravela que conseguiu furar o cerco de Diu, contribuindo decisivamente para a vitória final.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Affonso de Albuquerque capitam-mór

Anno de 1503

Affonso de Albuquerque capitão-mor de três naos partio a seis de Abril. Capitães Pero Vaz da Veiga, Duarte Pacheco Pereira <o Famozo>. Neste mesmo anno foi outra armada de que foi capitão-moor Francisco de Albuquerque, partio a quatorze de Abril. Capitães Nicolao Coelho, Fernão Martins de Almada, e se dez a primeira fortaleza que ouve em Cochim, de madeira. E ficou por capitão-moor do mar Duarte Pacheco que fez tantos e tão assinalados feitos, como se escreve nas chronicas, e se assentou feitoria em Coulão. Vindo para este Reino se perderão Francisco de Albuquerque e Pero Vaz da Veiga e os mais chegarão a salvamento.

Em Maio deste mesmo anno partio por capitão-mor doutra armada Antonio de Saldanha, Rui Lourenço Ravasco que arribarão ao Reino para andar às presas no Cabo de Guardafui. E Diogo Fernandes Pereira que descobrio Socotoraa,


  

era de Setuval, e por ser homem uzado no mar hia tambem por mestre da náo. A[s] seis vellas das primeiras duas capitanias dos Albuquerques haviam de trazer a carga da especiaria, e as tres da capitania de Antonio de Saldanha haviam de andar na boca do Estreito do Mar Roxo esperando as náos dos Mouros de Meca. Francisco de Albuquerque e Pero Vaz da Veiga se perderam tornando para o Reino. Diogo Fernandes Pereira foi ter à Ilha de Sacotorá, que ainda nam era descuberta, e nella invernou. Antonio de Saldanha tornando para Portugal com hum temporal que lhe deu na paragem do Cabo da Boa Esperança lhe quebrou o mastro e sem elle foi ter à Ilha de S.ta Elena.

(Leitura e anotações de Maria Hermínia Maldonado, obra publicada pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

CAPÍTULO III

Em que conta a geração de que descende o infante dom Henrique

Duas coisas me movem falar em este presente capítulo da geração deste nobre príncipe.

Primeiramente, porque a longa velhice dos tempos afasta da memória o próprio conhecimento das coisas passadas, as quais se a escritura as não representasse ante nossos olhos, cego seria disso de todo nosso saber. E pois, por representação do presente, aos que hão-de vir me assento a escrever; não devo passar calando a nobreza de tão alta geração (inda que este livro por si há-de possuir apartado volume) pois pode acontecer que os que lerem por este [livro] não saberão parte dos outros. Mas isto, porém, será breve, para me não afastar longe de meu propósito.

Segundamente, para que não corramos de todo com tanta virtude a um próprio lugar mas que demos alguma parte aos primeiros antecessores (porque certo é que a nobreza da linhagem bem esguardada por algum seu descendente – muitas vezes por escusar vergonha ou, por alguma maneira, cobrar excelência – constrange a virtude e alevanta o coração para sofrer maiores trabalhos).

Pelo que, haveis de saber que el-rei D. João, que foi o décimo rei em Portugal (aquele que venceu a grande batalha de Aljubarrota e filhou a mui nobre cidade de Ceuta, em terra de África), foi casado com D. Filipa, filha do duque de Alencastro e irmã del-rei D. Henrique de Inglaterra; da qual houve seis filhos lídimos, scilicet, cinco infantes e uma infante que depois foi duquesa de Borgonha (deixo alguns que em sua nova idade fizeram seu fim). Dos quais filhos, este foi o terceiro. E assim, entre os avoengos do pai e da mãe, a geração de este cinge e abraça o mais nobre e mais alto sangue da Cristandade. E foi também irmão del-rei D. Duarte e tio del-rei D. Afonso, reis que, depois da morte del-rei D. João, reinaram em Portugal.

E isto, como disse, toco sob brevidade, porque, se mais largo o declarar quisesse, abalaria tantas matérias, que por qualquer de elas que o necessário [eu] quisesse seguir, faria tamanha detença que tarde tornaria ao primeiro começo.

“Crónica do Descobrimento e Conquista de Guiné”, Gomes Eanes de Zurara

Bibliografia consultada:

– “História de Portugal” (coordenação de José Hermano Saraiva), Vol. III – “A Epopeia dos Descobrimentos – A Dinastia de Avis e a Expansão Ultramarina”, por Newton de Macedo, edição QuidNovi, 2004

Crónica da Guiné

(ver texto integral)

(via Biblioteca Nacional Digital)

Dom Vasco da Gama almirante da India

Anno de 1502

Dom Vasco da Gama capitão-moor de quinze naos partio a des de Fevereiro segunda vez. Capitães: Dom Luiz Coutinho Ramiro, Gil Fernandes de Sousa, Alvaro de Attaide, Vicente Sodré, Braz Sodré, Gil Matoso, Diogo Fernandes Correa, Françisco da Cunha, Pedr’Affonso de Aguiar, Rui de Castanheda, Antonio do Campo, Loppo Mendes de Vasconsellos. E de caravellas Fernão Roiz Badarças, João Lopes Perestrelo, Antonio Fernandes, Thomas de Cremona, João de Bonagraçia italianos, Loppo Dias. E por todas forão quinze embarcações porque das caravelas foi capitão-moor.

Dom Estevão da Gama partio em dez de Abril e ficou por capitão-moor do mar Vicente Sodré que se perdeo com seu irmão nas Ilhas de Curia e Muria, que estão no Estreito do Mar Roxo. Neste anno se fez tribotario ElRei de Quiloa. Voltou o capitão-moor ao Reino com todas as naos carregadas.

(Leitura e anotações de Maria Hermínia Maldonado, obra publicada pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

Cronista (século XV). A partir de 1451 teve a seu cargo a guarda da livraria real e, em 1454, substituiu Fernão Lopes nos cargos de cronista oficial da corte e guarda-mor do arquivo da Torre do Tombo, onde se manteve até à data da sua morte.

Era filho ilegítimo de um cónego e a sua formação foi feita na corte de D. Afonso V, tendo sido o protegido deste e do infante D. Henrique. Foi cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador de Alcains, da Granja do Ulmeiro e de Pinheiro Grande.

Tinha uma visão da sociedade muito individualista e as suas obras debruçam-se, essencialmente, sobre grandes personalidades, enaltecendo-as. Exemplo disso são os elogios que fez a grandes senhores como, por exemplo, o infante D. Henrique ou D. Duarte de Meneses e D. Pedro de Meneses. Recorreu também a um estilo didáctico ou moralista. Revelava conhecimentos da cultura clássica e já traços do renascimento.

As suas crónicas, ao contrário das de Fernão Lopes, que confrontavam diferentes fontes escritas, assentam no testemunho oral dos protagonistas dos acontecimentos relatados. São de sua autoria Crónica da Tomada de Ceuta ou Terceira Parte da Crónica de D. João I, Crónica do Conde D. Pedro de Meneses e Crónica dos Feitos da Guiné, entre outras.

“História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004

D. Dinis

Quem melhor do que D. Dinis para primeiro “protagonista”, inaugurando esta série de grandes figuras da História dos Descobrimentos?

D. Dinis, o Lavrador – 6º Rei de Portugal (Lisboa, 9 de Outubro de 1261 – Santarém, 7 de Janeiro de 1325), entre 1279 e 1325.

Filho de D. Afonso III e de D. Beatriz de Guillén (filha bastarda de Afonso X de Castela), casou em 1282 com Isabel de Aragão (filha de Pedro III de Aragão) – que viria a entrar na História como “Rainha Santa” – de quem viria a ter dois filhos: D. Constança e o futuro D. Afonso IV. D. Dinis teve ainda outros 6 filhos fora do casamento.

Viria a ter sérias disputas com o filho D. Afonso (que, tomando o partido da nobreza, contestava a forma como D. Dinis dirigia o poder judicial, reprimindo os abusos senhoriais) – que conduziram mesmo o país a uma guerra civil –, as quais seriam intermediadas pela Rainha Santa Isabel.

Foi um dos mais destacados monarcas da I Dinastia, com um reinado decisivo para o futuro da nação, tendo assinado, em 1297, o Tratado de Alcanices que fixaria até hoje – praticamente sem alterações – as fronteiras de Portugal.

Em 1317, contratando o genovês Manuel Pessagno, nomeado almirante-mor do reino, com a função de organizar e comandar a frota portuguesa, fundou as bases da marinha lusitana. Desenvolveria também a actividade das pescas.

Não ignorando a importância das ordens religiosas, nacionalizou a Ordem de Sant’Iago, tendo ainda evitado a extinção da Ordem dos Templários, propiciando a sua sucessão pela Ordem de Cristo, que viria a assumir papel preponderante nas Descobertas.

A nível comercial – num reinado caracterizado pelo progresso económico –, instituiu mercados e feiras francas, tendo ainda concedido privilégios e isenções a várias povoações, também com a finalidade de estimular o povoamento.

Teria como cognome “O Lavrador” pela atenção que dedicou à distribuição e exploração das terras agrícolas, sendo uma das suas medidas mais conhecidas a decisão de plantar o pinhal de Leiria – protegendo as terras agrícolas do avanço das areias costeiras -, de que proviria a madeira das naus dos Descobrimentos.

Por fim, no plano cultural, ficou também célebre pelas suas trovas e cantigas de amor, de amigo, de escárnio e maldizer, numa época de ouro da poesia medieval. Em 1290, criaria mesmo o “Estudo Geral”, em Lisboa, instituição que, após a sua transferência para Coimbra, viria a dar origem à primeira Universidade em Portugal. Seria ainda o responsável pela deliberação da adopção do português como língua oficial em documentos escritos (em detrimento do latim).

(Imagem via Wikipédia)

Bibliografia consultada

“História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004

– “D. Dinis”, por José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, colecção Reis de Portugal, edição do Círculo de Leitores, em colaboração com o Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa, 2005

– “O Palácio Nacional de Sintra”, de José Custódio Vieira da Silva, edição Scala / Ministério da Cultura / Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), 2003

– “Nova História de Portugal”, Direcção de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, Vol. III – “Portugal em Definição de Fronteiras (1096-1325) – Do Condado Portucalense à Crise do Século XIV”, Coordenação de Maria Helena da Cruz Coelho e Armando Luís de Carvalho Homem, Editorial Presença, 1996

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