Artiguo xi, que fala d’Arrabia Deserta.

Esta terra d’Arrabia Deserta, pelo estreito de Mequa, começa de Judaa ate o Toro e vai ao mar Mediterraneo, e devide ha terra do Egito de Judaa. Alguns afirmão que Mequa hé nesta terra e não na Petrea. Desta não há que dizer. Tem alarves ladrõis, não tem arvores nem fruitas nem aguoa gerallmente, salvo em ho lugar dos alarves sabidos. Não tem outra vida se não furtar, sam maliciosos e fora de rezão, amdam em cabildas salteamdo omde o achão. […]

Artiguo xiii, que fala da Pérsia.

Porque Ormuz hé vezinho da Pérsia, pareçe me rezão falar dela neste lugar. Esta grande e amtiga província, de que tantos escritores escreverão, não tem mais no mar Oceano que ho reino d’Ormuz. Sua confirma/cão hé da bamda de Cambaia os Nautaques, da bamda d’Arabia o estreito d’Ormuz, pola terra firme as serranias de Deli, per Arménia casi por Babilónia e por Media, e vem dar na Imdia. É devidida estra provimçia em mais de quarenta reinos e regiõis, dela hé abitada e mui boa, e dela mui perigosa, muntuosa e desabitada. Chama se esta província asi toda jumta, na limgajem deles, Ageus, e nós chamamos lhe[s] Persas ou Persianos. As milhores provimcias sam quatro, scilicet, Tauris, Xiras, Tamarcalte, Coracori. Sam homens gerreiros e de peleja e estimados, e dizem que trazem o nacimento de cristãos, digo pelos Tamarcais. Os de Tauris e Xiras sam como em França Paris, sam domésticos, gemtis homens, cortesãos, e sobre tudo se louvão as molheres de Xiras, de fremosas e alvas e discretas e ataviadas. Omde os Mouros dizem que Mafamede nunca quis ir a Xiras, por que gostamdo desta cidade e seu trato, nunca quisera ir ao paraíso depois de morto. […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “O Manuscrito de Lisboa da Suma Oriental” de Tomé Pires; Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Instituto Português do Oriente, 1996)