Capítulo I

Da cidade de Ormuz, no Reino da Pérsia

Antes que o reino de Ormuz fosse ganhado por el Rei D. Manuel, que Deus haja, pagavam os reis de Ormuz párias ao Xeque Ismael ou Sufi, como agora lhe chamam; depois não lhas pagaram mais. E querendo el Rei D. Manuel saber o que rendia a alfândega de Ormuz, pôs nela oficiais portugueses em tempo que Diogo Lopes de Sequeira governava a Índia. Pelo que el Rei de Ormuz se alevantou logo contra os portugueses, mandando oferecer ao Sufi as párias que dantes tinha no reino de Ormuz com outras tantas e que o ajudasse contra os portugueses. Do que o Sufi foi contente: e mandou gente em sua ajuda. Mas quando chegou a terra firme, já el Rei de Ormuz era morto e feito outro rei, que estava concertado com os portugueses. Vendo os capitães do Sufi que iam em ajuda del Rei que a sua ida era debalde, tolhiam as cáfilas que iam para Ormuz. Pelo que el Rei de Ormuz perdia as suas rendas e escusava-se ao governador D. Duarte de Meneses, que então governava a Índia, que não podia pagar a el Rei de Portugal as párias que era obrigado a pagar. Para desapresar Ormuz desa opressão e da gente do Sufi mandou o governador uma embaixada por um homem de muito merecimento, chamado Baltasar Pessoa, o qual partiu da cidade de Ormuz, de que farei menção. Esta cidade de Ormuz está em uma ilha assim chamada, situada na boca do sino Pérsico três léguas de terra firme; terá de roda três ou quatro léguas: há nela uma pequena serra, que de uma parte tem uma pedreira de sal e que se chama o Sal Índico, e da outra é de vieiros de enxofre. O sal é de dentro muito alvo e de fora ruivo. Uma légua da cidade estão estão três poços de água muito boa e não tem outra salvo de cisternas, ou salobras, nem têm arvoredos, nem campos verdes. E conquanto assim é estéril por estar naquela paragem e ter o melhor porto que pode ser, fundaram nela os mouros uma cidade a que puseram o nome Ormuz, em uma ponta da ilha e os portos ficam em baías: um do Levante e o outro do Poente, em que podem tirar a monte naus de quatrocentos tonéis.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)