A cidade é rasa, nem tem outra fortaleza senão as casas del Rei; é de muitas e muito formosas casas de pedra e cal de gesso e de dois e três sobrados, cobertas de terrado porque é muito quente no Verão. Têm as casas uns cataventos que são como chaminés claras e passam arriba dos ditos terrados: fazem-nos no meio de uma casa e por eles lhes entra o vento no Verão. No Inverno os têm tapados. Os moradores têm lei de Mafamede: são persianos e arábios; falam aravio e persiano. Os arábios são baços e os persianos alvos e bem apessoados e são todos muito dados a deleitações assim em o comer como em outros apetites carnais, principalmente na luxúria. São tão grandes cavalgadores que jogam a choca a cavalo. São naturalmente músicos, assim de falas como de mãos, muito trovadores e dados a ler histórias antigas e a outras boas manhas. São muito ciosos das mulheres, e com razão, porque são elas muito formosas e muito dadas à sensualidade. Saem de casa poucas vezes, e quando vão fora vão todas cobertas com um pano grande, como lençol com buracos, por onde vêem. Elas e eles andam muito bem ataviados. Trazem cabaias de seda acolchoadas no Inverno e capas de escarlata e de panos finos; e no Verão de lenço de linho muito delgado, de que também trazem camisas, e ceroulas. Calçam sapatos de pontilha de couro ou de seda. Trazem em as cabeças toucas brancas foteadas sobre uns barretes vermelhos com umas trombas vermelhas. E assim como andam bem ataviados de vestido, o andam de armas, a saber: terçados e adagas, arcos turquescos e frechas. São grandes frecheiros. Trazem uns escudos a que chamam cofos, de seda e de algodão, tão fortes que os não passa nenhuma frecha e continuamente trazem estas armas na paz. Na guerra acrescentam lanças e armas defensivas de lâminas de ferro e de aço.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)