Capítulo XV

Da grande e notável cidade de Tabriz em fim da Pérsia, em a província chamada Aldaba em linguagem Persiana.

Tabriz é muito grande cidade, situada para a parte do ocidente entre duas serras que depois se vão alargando, cada uma para sua parte, a saber, uma para a parte do norte e outra para a do meio-dia. É rasa e sem muro, de muito nobres casas de pedra e cal e de taipas francesas, todas sobradadas e de abóbodas; têm poucas janelas, somente têm frestas que lhes dão claridade, porque a terra é muito fria. Têm nelas vidraças muito ricas e de muitos laços de cores e pinturas. As casas, que têm grandes jardins e pomares, dentro têm edifícios mui grandes e antigos. É muito apinhoada em partes, onde têm portas para em ela entrarem e saírem que a fazem mais forte muro. Há muitas mesquitas, e alcorões mui altos de cantaria e de pedra lavrada, cousa de admiração. Há muito grandes praças que são cobertas por cima, em que habitam mercadores e se contratam as mercadorias, porque é de muito trato. Tem dez ou doze aposentos mui grandes e muito bem lavrados, e cada um é uma vila para se aposentarem os mercadores com suas mercadorias, que não têm senão uma porta por onde entram, em que está uma grossa cadeia atravessada para que não entre nenhuma pessoa de cavalo. E além destas, em que habitam mercadores, há outras muitas para recoveiros e suas bestas. Tem muitas ruas de todos os ofícios, mui abastada. A uma banda desta cidade está uma cerca muito grande, de grandes pomares e hortas, onde estão as casas do Sufi, e são uns paços mui lavrados, feitos de alabastro ou mármore daquela terra, muito fino, e de muitas vidraças ricas. Ao redor da dita cerca estão muitos álamos em ordenança postos e muito altos; e em partes tanques de água muito grandes e bem lavrados em que andam cisnes e pássaros de diversas maneiras.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)