Esta cidade é habitada de Persianos e alguns Turquimães, gente alva e formosa de rosto e pessoa; tratam-se bem e vestem cetins, de que fazem os seus vestidos acolchoados, e panos de grã, nas capas com muitos e ricos alamares de ouro e de seda, e em forros muito ricos, que em esta terra valem muito e os vêm aqui vender mercadorias de Rússia, e assim de Veneza e de Turquia. Há nesta cidade muitas casas de banhos muito bem lavradas, onde se banham em o Inverno e Verão com o que fazem a gente muito alva e muito delicada. As mulheres são muito formosas e andam muito bem tratadas, e poucas vezes as honradas saem de casa. E quando saem vão a cavalo nos melhores cavalos que têm. Vão cavalgadas na sela como homens; o seu trajo é muito estreito nas mangas e recamado nos braços, esquipado no corpo e chega-lhes ao bico do pé, aberto por diante pólos peitos até à cinta, e assim as mesmas camisas. E para baixo ceroulas de seda, pola dianteira lavradas de ouro e aljofre, sobre as quais calçam meias calças de pano de escarlata, ou roxo, com sapatinhos muito delicados de seda e de couro, e sobre este vestido vestem uns roupões esquipados com mangas estreitas e compridas, que andam soltas; são forradas de arminhos e martas, e de outros forros. Na cabeça uns traçados com rebuço; e este é o trajo de todas as mulheres do Sufi e assim de outros grandes senhores ricos mercadores. O povo comum traz lenços finos de cores, acolchoados, com capas de panos de Londres e outros panos, todos com forros de raposas ou cordeiras; porque a terra se não pode sofrer sem eles, por ser muito fria no Inverno, que é quando cá em Espanha. O principal trato desta terra, e que mais rende ao Sufi, é de sedas cruas, que em esta cidade entram de outros reinos do Sufi, e daqui as levam para Turquia e outras terras de mouros e de cristãos. É muito abastada de mantimentos de toda a sorte, a saber, trigo, cevada e arroz e muitas carnes, e tudo barato; somente lenha e carvão é caro, porque vem de muito longe. Vale uma carga de camelo em a dita cidade seis ou sete Xais, que é uma moeda de prata que cada uma vale um tostão. Habitam aqui duas nações de cristãos, e há boa quantidade deles na terra: a uns se chamam Frangues, estes têm o costume e fé como nós, são os mais deles lavradores e oficiais de arte mecânica; e outros são arménios, que são deles mercadores grossos, e outros tratam em fazer vinho e o vendem escondidamente aos mouros. Têm algumas igrejas pequenas e oratórios em a dita cidade, onde dizem suas missas e celebram os ofícios divinos do costume da primitiva igreja, porém amedrontadamente.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)