Pelo meio desta cidade vai uma ribeira de água muito boa, de que se serve e bebe todo o pvoo, e a levam por canos por todas as ruas por debaixo do chão, onde cada rua tem em certos lugares uns bocais e fechos de pedra por onde a tiram. No Inverno vem quente e como é em cima sobre a terra em pouco espaço torna caramelo, e no Verão é esta terra tão quente que se costuma nela, em certas casas, debaixo do chão guardarem o caramelo homens que nisso tratam e vendem em todas as praças e ruas ao povo comum; e os honrados e ricos mandam trazer neve das serras e a têm em suas despensas e a deitam em água que bebem. Em esta terra nos agasalharam em umas ricas casas com grande jardim e pomar dentro, de fruta, como em Espanha, onde estivemos alguns dias descansando do trabalho do caminho; e o governador desta cidade nos mandou dar sempre o necessário de mantimentos, cevada e feno para os cavalos. E passados alguns dias nos partimos para a corte e campo do Sufi. […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)