Costumam estes gentios ir assi muito juntos, uns após outros, por o caminho não dar lugar a ir dous par a par; e vão dando grandes vivas e euges a seu pagode de contino, com estas palavras (ye Badrynate ye ye), alevantando qualquer a primeira palavra, e respondendo todos; com bem mágua nossa ouvíamos nós estas vozes do inferno,e já que não podíamos tomar outra vingança do maldito pagode, nos apostávamos a lhe lançar com a mesma frequência, outras tantas maldições, e pedir à Corte do Céu, em nosso nome desse outros tantos louvores e glórias ao Senhor Jesu. Logo na primeira jornada, a cada tiro de flecha, achávamos vários pagodes de obra sumptuosa, pela maior parte todos com lâmpadas acesas, mas todos de várias figuras, e todos abomináveis e ridículos; por guardas e servidores têm muitos iogues, que logo nas figuras mostram serem ministros do diabo; entre outros vimos um já mui velho, com as unhas e cabelo tão crescido, e a catadura tão disforme, que parecia o próprio diabo; e ele, sem falar palavra, como uma estátua, recebia os louvores e reverências dos gentios, que debruçados por terra lhe beijavam os pés. Desejei a este o que dois meses antes tinha este Rei mandado fazer a outro mais disforme; e foi que indo ele à caça em Agmir, ao longo de um grande tanque, onde concorriam naqueles dias grande número de gentios pera suas superstições, viu um iogue tão horrendo na figura que tinha os cabelos da cabeça compridos de quatro côvados e as unhas mais de palmo; e ele tão sem pejo, que com nada se cobria; era grande o concurso de gentios que lhe iam beijar os pés, e tudo el-Rei foi notando, ficando o iogue imóvel, sem lhe fazer nem uma reverência; voltando o Rei da caça, o mandou chamar; deu o iogue por resposta que não iria senão a ombros de homens no andor real; ouvindo el Rei esta resposta o mandou trazer a rasto pelos cabelos, e tendo-o diante de si lhe disse que ou ele era o diabo, ou retrato vivo do mesmo, pois não se podia imaginar cousa mais enorme; e logo lhe mandou cortar os cabelos e unhas, e dar outro castigo devido à sua descompostura, e após isso um grande número de açoites, e que o levassem pelos bazares, para que os rapazes com suas zombarias vingassem ou recompensassem os louvores e referências que lhe faziam os gentios; outro tanto se devia ao iogue de que acima falei. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)