Abril 2007


Militar (?-Calecute, 1510). Marechal do Reino ao serviço de D. Manuel I, foi enviado para a Índia com a missão de defender os direitos de Afonso de Albuquerque, que, apesar de ter sido nomeado governador daquela possessão portuguesa, fora preso pelo vice-rei Francisco de Almeida. Chegado ao Oriente no Outono de 1509, conseguiu a libertação do governador, participando, no ano seguinte, na tentativa de conquista de Calecute. Porém, durante a retirada, ao tentar destruir a cidade, foi morto, enquanto Afonso de Albuquerque ficava gravemente ferido. Em reconhecimento pela sua bravura e determinação como militar, em 1507 D. Manuel conferiu-lhe a capitania da ilha Graciosa.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Anúncios

Aos 30 do mes em quarta feira tomey o sol e fiquey em 8 graos e ¾. O vento foi nornordeste calmão quanto a nao governava, e de noite mais calma que de dia, arefrescou mais algua cousa, ontem a tarde se fez o vento como noroeste com a viração, e a noite acalmou e tornou a rajar do nordeste, e oje esteve nordeste athe meo dia, e a tarde tornou noroeste, e tudo isto calmão quanto a nao governa. Vim governando ao susueste e por ahy lhe dou o caminho; andou a nao 15 legoas e não foi ventto pera andar tanto, por ser muito calma de noite. Ha muitos rilheiros de agoa, a nao trabalha muito com as vellas da gavea, com o mar que vem de popa e como he curta da grande… as outras naos vem por nossa popa e a capitaina atras de todas. Vou esta tarde governando ao sueste e coarta do sul, não passar de lla nada. Algumas tartarugas. Dé nos Nosso Senhor boa viagem e a Virgem do Rosairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

“Pela segunda vez, são visitadas e exploradas as Canárias, numa expedição comandada por D. Fernando de Castro”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 – Abril de 2000)

À quinta-feira, derradeiro d’Abril, comemos logo quase pela manhã e fomos em terra por, mais lenha e água. E, em querendo o capitão sair, desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dous hospedes. E, por ele não ter ainda comido, puseram-lhe toalhas e veio-lhe, vianda e comeu. Assentaram cada um dos hóspedes em sua cadeira e de tudo o que lhes deram comeram mui bem, especialmente lacão cozido, frio, e arroz. Não lhes deram, vinho, por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel e eles connosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta e, tanto que a tomou, meteu-a logo no beiço; e, porque se lhe não queria ter, deram-lhe uma pequena de cera vermelha e ele corregeu-lhe detrás seu adereço para se ter, e meteu-a no beiço assim revolta para cima. E vinha tão contente com ela, como se tivera uma grande jóia. E, tanto que saímos em terra foi-se logo com ela, que não apareceu aí mais.

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles e daí a pouco começaram de vir; e parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta. Traziam alguns deles arcos e setas e todos os deram por carapuças ou por qualquer cousa que lhes davam. Comiam connosco do que lhes dávamos e bebiam alguns dele vinho e outros o não podiam beber, mas parece-me que se lho avezarem que o beberão de boa vontade.

Andavam todos tão dispostos e tão bem feitos e galantes com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mui boas vontades, e levavam-na aos batéis. E andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nos andávamos entre eles.

Foi o capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água que, a nosso parecer, era esta mesma que vem ter à praia em que nós tomámos água. Ali ficámos um pedaço bebendo e folgando ao longo dela, entre esse arvoredo, que é tanto e tamanho e tão basto e de, tantas prumagens que lhe não pode homem dar conto. Há entre ele muitas palmas de que colhemos muitos e bons palmitos.

Quando saímos do batel, disse o capitão que seria bom irmos direitos à cruz, que estava encostada a uma árvore, junto com o rio, para se pôr de manhã, que é sexta-feira, e que nos puséssemos todos em joelhos e a beijássemos, para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim o fizemos.

E esses dez ou doze, que aí estavam, acenaram-lhes que fizessem assim e foram logo todos beijá-la. Parece-me gente de tal inocência que, se o homem entendesse e eles a nós, que seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece. E, portanto, se os degradados que aqui hão-de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, fazerem-se cristãos e crerem na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade e imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar.

E logo lhes Nosso Senhor deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens e ele, que nos por aqui trouxe, creio que não foi sem causa. E, portanto, Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar na santa fé católica, deve entender em sua salvação; e prazerá a Deus que, com pouco trabalho, será assim. Eles não lavram nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse inhame que aqui há muito e dessa semente e fruitos que a terra e as árvores de si lançam.

E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos. Enquanto ali, este dia, andaram, sempre ao som dum tamborim nosso dançaram e bailaram com os nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus. Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso em tal maneira que, se os homem todos quisera convidar, todos vieram.

Porém não trouxemos esta note às naus senão quatro ou cinco, a saber: o capitão-mor, dous, e Simão de Miranda, um, que trazia já por pajem, e Aires Gomes, outro, assim pajem. Os que o capitão trouxe era um deles um dos seus hóspedes que à primeira, quando aqui chegámos, lhe trouxeram, o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão os quais foram esta noute muito bem agasalhados assim de vianda como de cama de colchões e lençóis por os mais amansar.

Aos 29 do mes em terça feira tomey o sol e fiquey em 9 graos e 1/2. O vento foi nornordeste bonançoso, de noite foi mais calmão, e pela menhã refrescou mais algua cousa, esta tarde esta mais bonança. A proa foi a quarta do sueste e ao susueste. Dey a nao o caminho a metade pella quarta e a metade pella mea partida; andou a nao 27 legoas que he muito andar pera o vento que ventou, mas deve ser as agoas que nos favorecem ao andar dellas, graças a vaga do mar que vem do nordeste, mas já esta noite o oje a nao sente algum mar de proa. De nos Nosso Senhor boa viagem e a Virgem do Rosairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

Hoje, pelas 16 horas, na Igreja de Santa Maria de Almoster, em Santarém, o “Projecto Olhar a História” evoca, em “Conversa Monumental”, “A notícia da Carta de Pêro Vaz de Caminha”, com dinamização do Centro Dramático Bernardo Santareno.

“E neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra […] ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz”. Foi este acontecimento singular, ocorrido a 22 de Abril de 1500, que esteve na origem da Carta de Pêro Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral, que durante a sua viagem de ida para a Índia, descobria oficialmente o litoral do que viria a ser o Brasil. Esta Carta, que pretendia dar a notícia deste achamento ao Rei D. Manuel I, viria a revelar-se um dos documentos mais notáveis da nossa literatura de viagens.

A entrada é livre, devendo o acesso ao espectáculo ser feito mediante o levantamento de bilhetes no Teatro Sá da Bandeira, em santarém, até às 13 horas.

À quarta-feira não fomos em terra, porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. Eles acudiram à praia muitos, segundo das naus vimos, que seriam obra de trezentos, segundo Sancho de Tovar, que lá foi, disse.

Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degradado, a que o capitão ontem mandou que, em toda maneira, lá dormissem, volveram-sé já de noute, por eles não quererem que lá dormissem. E trouxeram papagaios verdes e outras aves pretas, quase como pegas, senão quanto tinham o bico branco e os rabos curtos.

E quando se Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam-se vir com ele alguns, mas ele não quis senão dous mancebos dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noute mui bem pensar e curar. E comeram toda vianda que lhes deram. E mandou-lhes fazer cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noute. E assim não foi mais esse dia que para escrever seja.

Página seguinte »