Abril 2007


Capitão-donatário da ilha de São Tomé (?- 28 de Abril de 1499). Cavaleiro da Casa Real, depois de integrar várias expedições à costa africana, foi nomeado, em 1493, 3º capitão donatário da ilha de São Tomé. Iniciou, então, o efectivo povoamento e a verdadeira colonização da ilha, fazendo transportar para a região, primeiro, degredados, escravos negros e jovens cristãos-novos e, pouco depois, agricultores da Madeira. Durante o seu governo foi introduzida a cultura da cana-de-açúcar, que rapidamente se tornou um sucesso, assim como foi fundada a vila da Povoação, mais tarde a cidade de São Tomé. Recebeu vários privilégios por parte de D. João II, como a concessão do comércio e do resgate de escravos em certas zonas da costa africana.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Aos 28 do mes em segunda feira tomey o sol e fiquey em 11 graos escasos. O vento foi nornordeste e de noite ventou bem e pla menham foy algua cousa mais bonança. Vim governando ao sul e quarta de sueste e por ahy lhe dey o caminho, mas achey que a nao que andou muito mais do que podia andar com este vento que trouxe, por não ser vento pera tanto caminho, mas como estes dias anda o sol sobre nossa cabeça, não lhe dou muito credito, ou sam agoas que vão connosco porque ha muitos rilheiros d’agoa muito a meude e por aquy favorecem muito o caminho da não. Oje vou governando a susueste, estou do Cabo Rouxo 55 legoas. O tempo esta de çeos, o mar vem de nordeste, e o vento hora he fresco ora bonança. Aparecerão oje alcatrases brancos e pretos, e graginas. Vamos as naos. De nos Nosso Senhor boa viagem e a Virgem do Rosairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

À terça-feira, depois de comer, foi-nos em terra dar guarda de lenha e lavar roupa. Estavam na praia, quando chegámos, obra de sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegámos, vieram-se logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto connosco, que nos ajudavam deles a acarretar lenha e meter nos batéis e lutavam com os nossos e tomavam muito prazer.

E, enquanto nós fazíamos a lenha, faziam dous carpinteiros uma grande cruz dum pau que se ontem para isso cortou. Muitos deles vinham ali estar com. os carpinteiros e creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro, com que a faziam, que por verem a cruz, porque eles não têm cousa que de ferro seja e cortam sua madeira e paus com cunhas, metidas em um pau, entre duas talas mui bem apertadas e por tal maneira, que andam fortes segundo os homens, que ontem a suas casas foram diziam, porque lhas viram lá.

Era já a conversação deles connosco tanta, que quase nos torvavam ao que havíamos de fazer. E o capitão mandou a dous degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e a outras, se houvessem delas novas, e que, em toda maneira, não se viessem a dormir às naus, ainda que os eles mandassem. E assim se foram.

Enquanto andávamos nesta mata, a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá nesta terra muitos, mas eu não veria mais que até nove ou dez. Outras aves, então, não vimos; somente algumas pombas seixas e pareceram-me maiores, em boa quantidade, que as de Portugal. Alguns diziam que viram rolas, mas eu não as vi, mas, segundo os arvoredos são mui muitos, e grandes e d’infindas maneiras, não duvido que por esse sertão haja muitas aves. E acerca da noute nos volvemos para as naus com nossa lenha.

Eu creio, Senhor, que não dei ainda aqui conta a Vossa Alteza da feição de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos e as setas compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá por- alguns, que creio que o capitão a Ela há-de enviar.

Fernão de MagalhãesFernão de Magalhães terá nascido no Porto, por volta de 1480, tendo falecido na ilha de Mactan, nas Filipinas, a 27 de Abril de 1521.

De origem nobre, fez parte da expedição de D. Francisco de Almeida à Índia, no ano de 1505. Participou na tomada de Goa (em 1510) e nos combates de Malaca, no ano seguinte, tendo regressado a Portugal em 1513. Participaria ainda na defesa de Azamor, chefiada pelo duque de Bragança, enfrentando inúmeros combates, tendo ficado ferido numa perna.

Desgostoso com o facto de D. Manuel não lhe ter concedido uma recompensa pelos seus feitos, isolou-se no planeamento da viagem às Molucas pelo Ocidente, procurando uma passagem para o Pacífico, pela América do Sul, numa área não reservada aos portugueses pelo Tratado de Tordesilhas, apresentando esse plano a Castela em 1517, o que viria a ser aceite por Carlos V no ano seguinte.

A primeira viagem de circum-navegação partiria de Sevilha, a 20 de Setembro de 1519, alcançando, um ano depois, o estreito que tomaria o nome de Magalhães, sendo o primeiro europeu a navegar no oceano designado por Pacífico. Em 1521, com a tripulação (composta por castelhanos e portugueses) dizimada pela sede, fome e doenças – e tendo perdido, por naufrágio e deserção, 2 dos 5 navios -, ancorou em Cebu, nas Filipinas, vindo a ser morto numa emboscada, na ilha de Mactan.

A expedição seria completada por Juan Sebastián Elcano, dando seguimento ao plano delineado por Fernão de Magalhães, com o regresso, em Setembro de 1522, ao porto de Sanlúcar de Barrameda, de apenas um dos navios que iniciara a viagem 3 anos antes.

(Imagem via http://sio.midco.net/dansmapstamps/magellan.htm)

Bibliografia consultada

“História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004

Aos 27 do mes em domingo não tomey o sol por não aparecer digo por estar sobre a cabeça. O vento foi norte e nornordeste e de noite ventou bem, de dia mais bonança. A proa foi ao sul e pello sul lhe dey o caminho e parte delle a quartta do sudueste por respeito d’agulha; dey a nao 30 legoas; faço estar a nao em 13 graos e 1/3. Depois do meo dia mandey governar ao sul e quarta do sueste, antes rilheiros d’agoa que arrapião o ventto estes dias todos. Aparecem tartarugas sobre o grande, oje vi duas, e aparecerão oje muitos alcatrazes brancos, mangas de veludo. O tempo de bons sembrantes. Vamos as nãos todas três e hum navio. Dé nos Nosso Senhor boa viagem e a Virgem do Rosairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

“É dobrado o cabo Não, na costa marroquina”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 – Abril de 2000)

À segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos e estiveram assim um pouco afastados de nós. E despois, poucos e poucos, misturavam-se connosco e abraçavam-nos e folgavam e alguns deles se esquivavam logo.

Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer cousa. E em tal maneira se passou a cousa, que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles, onde muitos deles estavam com moças e mulheres e trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas d’aves, deles verdes e deles amarelos, de que creio que o capitão há-de mandar amostra a Vossa Alteza.

E, segundo diziam esses que lá foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos de mais perto e mais à nossa vontade, por andarmos todos quase misturados, e ali deles andavam daquelas tinturas quartejados, outros de metades, outros de tanta feição, como em panos d’armar, e todos com os beiços furados e muitos com os ossos neles e deles sem ossos. Traziam alguns deles uns ouriços verdes d’árvores que, na cor, queriam parecer de castanheiros, senão quanto eram mais e mais pequenos.

E aqueles eram cheios, d’uns grãos vermelhos pequenos, que, esmagando-os entre os dedos, faziam tintura multo vermelha de que eles andavam tintos. E quanto mais se molhavam tanto mais vermelhos ficavam. Todos andam rapados até cima das orelhas e assim as sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas da tintura preta que parece uma fita preta, ancha de dous dedos.

E o capitão mandou àquele degradado Afonso Ribeiro e a outros dous degradados, que fossem andar lá entre eles, e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. E aos degradados, mandou que ficassem lá esta noute. Foram-se lá todos e andaram entre eles e, segundo eles diziam, foram, bem uma légua e meia a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez casas, as quais, diziam que eram tão compridas cada uma como esta nau capitania. E eram de madeira, e das ilhargas, de tábuas, e cobertas de palha; de razoada altura e todas em uma só casa, sem nenhum repartimento.

Tinham dentro muitos esteios e d’esteio a, esteio uma rede, atada pelo cabos em cada esteio, altas, em que dormiam, e, debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma em um cabo e outra no outro. E diziam que, em cada casa, se acolhiam trinta ou quarenta pessoas e que assim os achavam e que lhes davam de comer daquela vianda que eles tinham, a saber: muito inhame e outras sementes, que na terra há, que eles comem.

E, como foi tarde, fizeram-nos logo todos tornar e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo eles diziam, queriam-se vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e por outras cousinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos muito grandes e formosos e dous verdes, pequeninos e carapuças de penas verdes e um pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assás formoso, segundo Vossa Alteza todas estas cousas verá, porque o capitão mandar, segundo ele disse. E, com isto, vieram. E nós tornámo-nos às naus.

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