Abril 2007


Fernão de MagalhãesFernão de Magalhães terá nascido no Porto, por volta de 1480, tendo falecido na ilha de Mactan, nas Filipinas, a 27 de Abril de 1521.

De origem nobre, fez parte da expedição de D. Francisco de Almeida à Índia, no ano de 1505. Participou na tomada de Goa (em 1510) e nos combates de Malaca, no ano seguinte, tendo regressado a Portugal em 1513. Participaria ainda na defesa de Azamor, chefiada pelo duque de Bragança, enfrentando inúmeros combates, tendo ficado ferido numa perna.

Desgostoso com o facto de D. Manuel não lhe ter concedido uma recompensa pelos seus feitos, isolou-se no planeamento da viagem às Molucas pelo Ocidente, procurando uma passagem para o Pacífico, pela América do Sul, numa área não reservada aos portugueses pelo Tratado de Tordesilhas, apresentando esse plano a Castela em 1517, o que viria a ser aceite por Carlos V no ano seguinte.

A primeira viagem de circum-navegação partiria de Sevilha, a 20 de Setembro de 1519, alcançando, um ano depois, o estreito que tomaria o nome de Magalhães, sendo o primeiro europeu a navegar no oceano designado por Pacífico. Em 1521, com a tripulação (composta por castelhanos e portugueses) dizimada pela sede, fome e doenças – e tendo perdido, por naufrágio e deserção, 2 dos 5 navios -, ancorou em Cebu, nas Filipinas, vindo a ser morto numa emboscada, na ilha de Mactan.

A expedição seria completada por Juan Sebastián Elcano, dando seguimento ao plano delineado por Fernão de Magalhães, com o regresso, em Setembro de 1522, ao porto de Sanlúcar de Barrameda, de apenas um dos navios que iniciara a viagem 3 anos antes.

(Imagem via http://sio.midco.net/dansmapstamps/magellan.htm)

Bibliografia consultada

“História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004

Aos 27 do mes em domingo não tomey o sol por não aparecer digo por estar sobre a cabeça. O vento foi norte e nornordeste e de noite ventou bem, de dia mais bonança. A proa foi ao sul e pello sul lhe dey o caminho e parte delle a quartta do sudueste por respeito d’agulha; dey a nao 30 legoas; faço estar a nao em 13 graos e 1/3. Depois do meo dia mandey governar ao sul e quarta do sueste, antes rilheiros d’agoa que arrapião o ventto estes dias todos. Aparecem tartarugas sobre o grande, oje vi duas, e aparecerão oje muitos alcatrazes brancos, mangas de veludo. O tempo de bons sembrantes. Vamos as nãos todas três e hum navio. Dé nos Nosso Senhor boa viagem e a Virgem do Rosairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

“É dobrado o cabo Não, na costa marroquina”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 – Abril de 2000)

À segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos e estiveram assim um pouco afastados de nós. E despois, poucos e poucos, misturavam-se connosco e abraçavam-nos e folgavam e alguns deles se esquivavam logo.

Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer cousa. E em tal maneira se passou a cousa, que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles, onde muitos deles estavam com moças e mulheres e trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas d’aves, deles verdes e deles amarelos, de que creio que o capitão há-de mandar amostra a Vossa Alteza.

E, segundo diziam esses que lá foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos de mais perto e mais à nossa vontade, por andarmos todos quase misturados, e ali deles andavam daquelas tinturas quartejados, outros de metades, outros de tanta feição, como em panos d’armar, e todos com os beiços furados e muitos com os ossos neles e deles sem ossos. Traziam alguns deles uns ouriços verdes d’árvores que, na cor, queriam parecer de castanheiros, senão quanto eram mais e mais pequenos.

E aqueles eram cheios, d’uns grãos vermelhos pequenos, que, esmagando-os entre os dedos, faziam tintura multo vermelha de que eles andavam tintos. E quanto mais se molhavam tanto mais vermelhos ficavam. Todos andam rapados até cima das orelhas e assim as sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas da tintura preta que parece uma fita preta, ancha de dous dedos.

E o capitão mandou àquele degradado Afonso Ribeiro e a outros dous degradados, que fossem andar lá entre eles, e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. E aos degradados, mandou que ficassem lá esta noute. Foram-se lá todos e andaram entre eles e, segundo eles diziam, foram, bem uma légua e meia a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez casas, as quais, diziam que eram tão compridas cada uma como esta nau capitania. E eram de madeira, e das ilhargas, de tábuas, e cobertas de palha; de razoada altura e todas em uma só casa, sem nenhum repartimento.

Tinham dentro muitos esteios e d’esteio a, esteio uma rede, atada pelo cabos em cada esteio, altas, em que dormiam, e, debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma em um cabo e outra no outro. E diziam que, em cada casa, se acolhiam trinta ou quarenta pessoas e que assim os achavam e que lhes davam de comer daquela vianda que eles tinham, a saber: muito inhame e outras sementes, que na terra há, que eles comem.

E, como foi tarde, fizeram-nos logo todos tornar e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo eles diziam, queriam-se vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e por outras cousinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos muito grandes e formosos e dous verdes, pequeninos e carapuças de penas verdes e um pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assás formoso, segundo Vossa Alteza todas estas cousas verá, porque o capitão mandar, segundo ele disse. E, com isto, vieram. E nós tornámo-nos às naus.

Militar (séculos XVI e XVII), era filho de Cristóvão de Sousa e de D. Leonor Coutinho. No Oriente desde jovem, bateu-se na Índia, recebendo a capitania de Malaca, em 1641. Não podendo exercer o cargo, devido à invasão dos holandeses, foi nomeado capitão-donatário de Goa e, posteriormente, de Baçaim. Como capitão-general em Ceilão, foi confrontado com o poderoso ataque das forças flamengas que cercaram Colombo, a capital da ilha. Em franca desvantagem de homens e meios e sem receber socorros, defendeu a povoação sitiada durante oito longos meses. Porém, devido à fome e à peste que assolavam a região e, sobretudo, por lhes ter acabado a pólvora, viu-se obrigado à rendição: a 12 de Maio de 1656, perante um inimigo estupefacto, já de idade avançada, abandonava a fortaleza acompanhado dos seus homens famintos, doentes e esfarrapados.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Aos 26 do mes em sabado tomey o sol e fiquey em 15 graos e 1/6. O vento foi norte e nornordeste fresco e ventante; a proa foi ao sul e por o sul lhe dey o caminho, porque a nao capitaina vay sempre de my a leste muito, eu por amor della gino pera o sueste muito, e a vou buscar cada dia duas legoas a leste, muito contra minha vontade. Andou me a nao 30 legoas, acho que me andou pouco, a rilheiros de agoa que vem, o vento que tenho nos empede o caminho por irmos muito a terra; agoa he esverdeada; aparece hum alcatras. De nos Nosso Senhor boa viagem e a Virgem do Rosairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

“D. Henrique torna-se administrador e governador da Ordem de Cristo, que sucedeu à dos Templários”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 – Abril de 2000)

Ao domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão d’ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se corregessem nos batéis e fossem com ele; e assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperável e dentro nele alevantar altar mui bem corregido e ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique em voz entoada e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que ali todos eram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida da por todos com muito prazer e devoção.

Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre alta, à parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e pôs-se em uma cadeira alta e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história Evangelho. E, em fim dela, tratou de nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da cruz, sob cuja obediência vimos, a qual veio muito a propósito e fez muita devoção.

Enquanto estivemos à missa e à pregação, seriam na praia outra tanta gente pouco mais ou menos como os d’ontem, com seus arcos e setas, os quais andavam folgando e olhando-nos, e assentaram-se. E, despois d’acabada a missa, assentados nós à pregação, alevantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço.

E alguns deles se metiam em almadias, duas ou três, que aí tinham, as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra senão quanto podiam tomar pé. Acabada a pregação, moveu o capitão e todos para os batéis, com nossa bandeira alta; e embarcámos e fomos assim todos contra terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo Bartolomeu Dias em seu esquife, por mandado do capitão, diante, com um pau duma almadia, que lhes o mar levara, para lho dar, e nós todos, obra de tiro de pedra trás ele.

Como eles viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pusessem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra, e outros os não punham. Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não já que m’a mim parecesse que lhe tinham acatamento nem medo.

Este, que os assim andava afastando, trazia seu arco e setas e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos e espáduas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo; e os vazios com a barriga e estômago eram da sua própria cor. E a tintura era assim, vermelha que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias. E andava entre eles sem eles entenderem nada nele quanto a para lhe fazerem mal, senão quanto lhe davam cabaços d’água.

E acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao capitão e viemo-nos às naus a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem lhes dar mais opressão. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram. Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Foram alguns, em nós aí estando, buscar marisco e não no acharam.

E acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de bergões e d’amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E, tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por mandado do capitão-mor, com os quais se ele apartou e eu na companhia.

E perguntou assim a todos se nos parecia ser bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que agora nós podíamos saber, por irmos de nossa viagem.

E, entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. E nisto concluíram. E, tanto que a conclusão foi tomada, perguntou mais se seria bom tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza e deixar aqui por eles outros dous destes degradados.

A isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque geral costume era dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há aí tudo o que lhes perguntam, e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dous homens destes degradados que aqui deixassem do que eles dariam, se os levassem, por ser gente que ninguém entende; nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor o estoutros não digam, quando cá Vossa Alteza mandar.

E que, portanto, não curassem aqui de, por força, tomar ninguém nem fazer escândalo, para os de todo mais amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dous degradados, quando daqui partíssemos. E assim, por melhor parecer a todos, ficou determinado.

Acabado isto, disse o capitão que fôssemos nos batéis em terra e ver-se-ia bem o rio quejando era e também para folgarmos. Fomos todos nos batéis em terra, armados, e a bandeira connosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, onde nós íamos. E, antes que chegássemos, do ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos e acenavam que saíssemos.

E, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E, tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio e foram entre eles. E alguns aguardavam e outros se afastavam, mas era a cousa de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer cousa que lhes davam.

Passaram além tantos dos nossos e andavam assim misturados com eles, que eles se esquivavam e afastavam-se e iam-se deles para cima, onde outros estavam. E então o capitão fez-se tomar ao colo de dous homens e passou o rio e fez tornar todos. A gente que ali era não seria mais que aquela que soía.

E, tanto que o capitão fez tornar todos, vieram alguns deles a ele, não por o conhecerem por senhor, cá me parece que não entendem nem tomavam disso conhecimento, mas porque a gente nossa passava já para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas já ditas e resgatavam por qualquer cousa em tal maneira que trouxeram dali para as naus muitos arcos e setas e contas.

E então tornou-se o capitão aquém do rio e logo acudiram muitos à beira dele. Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho e quartejados assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, pareciam assim bem.

Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres moças, assim nuas que não pareciam mal, entre as quais andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tinta daquela tintura preta e o resto todo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas e também os colos dos pés. E suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas que não havia aí nenhuma vergonha.

Também andava aí outra mulher moça com um menino ou menina no colo, atado com um pano não sei de quê aos peitos, que lhe não apareciam senão as perninhas, mas as pernas da mãe e o resto não traziam nenhum pano.

E despois moveu o capitão para cima, ao longo do rio, que anda sempre a carão da praia, e ali esperou um velho que trazia na mão uma pá d’almadia. Falou, estando o capitão com ele perante todos nós, sem o nunca ninguém entender nem ele a nós, quanto a cousas que lhe homem perguntava d’ouro, que nós desejávamos saber se o havia na terra. Trazia este velho o beiço tão furado, que lhe caberia pelo furado um grande dedo polegar.

E trazia metido no furado uma pedra verde, ruim, que çarrava por fora aquele buraco. E o capitão lha fez tirar e ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do capitão para lha meter. Estivemos sobre isso um pouco rindo então enfadou-se o capitão e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, não, por ela valer alguma cousa, mas por mostra.

E despois, a houve o capitão creio para com as outras cousas a mandar a Vossa Alteza. Andámos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas, não muito altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos. Então tornou-se o capitão para baixo, para a boca do rio, onde desembarcámos.

E além do rio andavam muitos deles, dançando e folgando uns ante outros, sem se tomarem pelas mãos, e faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém que é homem gracioso e de prazer, e levou consigo um gaiteiro nosso, com sua gaita, e meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos. E eles folgavam e riam e andavam com ele mui bem, ao som da gaita. Despois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito.

E, conquanto os com aquilo muito segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como monteses. E foram-se para cima. E então o capitão passou o rio com todos nós outros e fomos pela praia, de longo, indo os batéis assim a carão de terra. E fomos até uma lagoa grande d’água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai água por muitos lugares.

E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles andar entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou e levava-lho e lançou-o na praia. Abasta (que até aqui, como quer que se eles em alguma parte amansassem, logo duma mão para a outra se esquivavam, como pardais de cevadoiro, e homem não lhes ousa falar de rijo por se mais não esquivarem.

E tudo se passa como eles querem por os bem amansar. Ao velho, com que o capitão falou, deu uma carapuça vermelha e com toda a fala, que com ele passou, e com a carapuça, que lhe deu, tanto que se espediu, que começou de passar o rio, foi-se logo recatando e não quis mais tornar do rio para aquém.

Os outros dous, que o capitão teve nas naus, a que deu o que já dito é, nunca aqui mais apareceram, de que tiro ser gente bestial e de pouco saber e por isso são assim esquivos. Eles, porém, com tudo, andam muito bem curados e muito limpos e naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos e tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser.

E isto me faz presumir que não têm casas nem moradas em que se acolham. E o ar, a que se criam, os faz tais. Nem nós ainda até agora não vimos nenhumas casas nem maneira delas. Mandou o capitão àquele degradado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles, o qual se foi e andou lá um bom pedaço.

E à tarde tornou-se, que o fizeram eles vir e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas e não lho tomaram nenhuma cousa do seu. Antes disse ele que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que ele levava e fugia com elas e ele se queixou e os outros foram logo após ele e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar. E então mandaram-no vir.

Disse ele que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes, como d’Entre Doiro e Minho. E assim nos tornámos às naus, já quase noite, a dormir.

Governador ultramarino (1657-1722), era filho segundo de D. João da Costa, governador das armas do Alentejo, e de D. Francisca de Noronha. Foi governador da Madeira (1689-1694), 30º governador-geral do Brasil (1702-1705) e vice-rei da Índia (1707-1712). Foi durante a sua governação do Brasil que se levantou a fortaleza de São Francisco Xavier da barra da Baía do Espírito Santo e se proibiu o envio de escravos da Baía para Minas Gerais, em sequência de problemas na exploração mineira. Desempenhava as funções de conselheiro de Estado quando faleceu.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Aos 25 do mes em sesta feira tomey o sol e fiquey em 17 graos. O vento foi norte e nordeste fresco, assim de noite como de dia; a proa foi ao sul e por elle lhe dey o caminho com o abatimento d’agulha, que por aquy nordestea mea quarta, asim que lhe dou o caminho a metade ao sul e a metade da quartta do sudueste, andou a nao 30 legoas, estou 35 da Ilha do Sal. Vou muito chegado a terra da costa, a capitaina a governar asim dês que partimos das Canárias. E a agoa he muito esverdeada, esbranquisada, que nunca des que por aqui venho achey desta maneira. O tempo esta como empoado e o vento fresco. Esta noite teve a lua sirculo, e o ceo vinha do sul a ginar. De nos Nosso Senhor boa viagem e a Virgem do Rosairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

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