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Usam também os chinas de bonifrates, com os quais fazem representações por engenhos, como em Portugal os trouxeram alguns estrangeiros para ganharem dinheiro; e para o mesmo fim de ganhar dinheiro os usam os chinas. Criam rouxinóis e ensinam-nos a fazer representações, com diversas maneiras de vestidos de homens e de mulheres, e fazem jeitos e trejeitos muito para folgar de ver. Só este género de pássaros criam em gaiolas mui bem feitas para cantarem, e têm comummente macho e fêmea em diversas gaiolas. E para cantarem apartam o macho da fêmea, de maneira que se sintam mas não se vejam; e assim se desfaz o macho em música, e cantam todo o ano. Eu tive dois, macho e fêmea, e em Dezembro cantavam como que fora em Abril. Sustentam-nos com arroz cozido envolto em uma gema de ovo, tamalavez sobre o seco, que se fiquem enganando, parecendolhe[s] bichinhos. Disse acima que se não dava esmola nesta terra a pobres, e porque poderão alguns perguntar que remédio tinham os pobres que não podem ganhar de comer por serem entrevados, aleijados ou cegos, pareceu-me bem satisfazê-los. É coisa digna de notar que aos cegos lhe[s] ordenam vida de trabalho em que ganham de comer, que é servirem em lugar de mulas d’atafona moendo trigo. E comummente, onde há atafona, há duas, porque andando dois cegos, em cada uma um, se desenfadem em praticar um com outro, como os eu vi andaram à roda com abanos nas mãos, abanando-se e amigavelmente praticando. As cegas servem de mulheres de partido e têm aias que as enfeitam e lhe[s] põem arrebique e alvaiade e lhe arrecadam o preço de seu mau uso. Desta maneira remedeiam a vida aos cegos.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)