Capítulo XIII

Dos Trajos e usos dos homens.

Ainda que os chinas comummente sejam feios, tendo olhos pequenos e rostos e narizes esmagados, e sejam desbarbados, com uns cabelinhos nas maçãs da barba, todavia se acham alguns que têm os rostos mui bem feitos e proporcionados, com olhos grandes, barbas bem postas, narizes bem feitos. Mas destes são muito poucos, e pode ser que sejam de outras nações nos tempos antigos entremetidas nos chinas, em tempo que eles comunicavam diversas gentes.

Seu trajo comum é pelotes de pregas compridos ao nosso bom modo antigo; dão volta por cima do peito, atando-se na ilharga, e todos em geral usam nos pelotes mangas muito largas. Trazem comummente pelotes pretos de linho ou de sarja fina ou grossa de diversas cores; alguns trazem pelotes de seda, muitos os usam nas festas de seda; e os regedores comummente vestem sarja fina, e nas festas usam de sedas ricas, principalmente de carmesim, o qual na terra ninguém pode trazer senão eles. A gente pobre comummente traz pelote de linho branco, porque custa pouco. Na cabeça trazem um barrete alto e redondo feito de varinhas muito finas sobretecidas de seda preta mui bem feito.

Usam de meias[s] calça[s] de pear inteiro, as quais são mui bem feitas e pespontadas. E trazem botas ou sapatos segundo a curiosidade ou possibilidade de cada um, ou de seda ou de couro. No Inverno trazem meias calças de feltro, ou grossas ou delgadas, mas o pano é feito de feltro. Também usam no Inverno de vestidos forrados de martas, principalmente ao redor do pescoço. Usam também de cabaias acolchoadas, e alguns usam de cabaias de feltro no Inverno, debaixo do pelote.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)