Foram-se um dia uns portugueses nobres mostrar em Cantão um banquete que fazia um mercador rico e honrado, o qual foi para folgar de ver. A casa em que se dava era sobradada e muito linda, com muito galantes janelas e adufas, e toda era um brinco. Estavam as mesas postas em três lanços da casa, para cada convidado uma mesa muito linda e sua cadeira dourada ou prateada, e cada mesa tinha em fronte um frontal de damasco até ao chão. Nas mesas não havia toalhas nem guardanapos, assim porque as mesas são muito lindas, como porque comem tão limpamente que não têm necessidade destas coisas. Estava a fruta posta logo na borda de cada uma das mesas, toda posta em ordem, a qual era castanhas assadas e esburgadas, e nozes limpas e [d]escascadas, e cana-de-açucar limpa e feita em talhadas, e a fruta que acima dissemos que chamam líchias, grandes e pequenas, mas eram passadas. Toda esta fruta estava posta em castelinhos bem feitos, atravessada com pauzinhos muito limpos. Pelo que todas as mesas em roda, com estes castelinhos, ficavam como ornadas. Logo após a fruta estavam todas as iguarias postas em bacios finos de porcelana, todas muito bem aparadas e mui limpamente cortadas, e tudo posto em boa ordem. E ainda que iam ordens de bacios por cima doutros, todos estavam postos polidamente, de maneira que o que estava à mesa podia comer do que quisesse sem ser necessário tirar bacio nem mudá-lo.

E logo estavam dois pauzinhos dourados muito galantes para comer com eles metidos entre os dedos; usam deles a modo de tenazes, de maneira que nada do que está à mesa tocam com a mão. E ainda que comam uma porcelana de arroz com aqueles paus, a comem sem lhe[s] cair grão. E porque comem muito limpamente sem tocar com a mão no comer, não têm necessidade de toalhas sem de guardanapos. À mesa lhe[s] vem tudo cortado e mui bem preparado. Tinham também uma porcelana muito pequena dourada, que leva um bocado de vinho, e só para isto há servidor à mesa. Bebem tão pouco porque a cada bocado de comer há-de ir bocado de beber, e por isso é tão pequena a vasilha.

Há alguns chinas que criam unhas muito compridas, de meio palmo até palmo, as quais trazem muito limpas, e estas unhas lhe[s] servem em lugar dos paus para comer.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)