Capítulo XXVII

Dos ritos e adorações dos chinas.

Não tem esta gente conhecimento algum de Deus, nem entre todos eles se acha rasto de tal conhecimento, o que mostra ser verdade não serem dados à contemplação das coisas naturais, nem haver entre eles estudos de filosofia natural, como alguns portugueses quiseram dizer que havia, movidos pelos estudos que sabiam que tinham, mas não sabiam serem de leis e não de filosofia. Ainda que, como disse, alguns por algumas escrituras de antigos têm alguma notícia dos eclipses do Sol e Lua, mas não que haja disto estudos gerais.

Se este estudo tiveram, era bastante para por ele virem a conhecimento de Deus, como o tiveram os filósofos antigos, dizendo o apóstolo São Paulo, na epístola aos Romanos, que as coisas invisíveis de Deus e sua divindade, poder e eternidade se vêm a conhecer pela contemplação e conhecimento das coisas criadas e visíveis. Pelo que, não terem os chinas conhecimento de um Deus, é bastante argumento para mostrar que os chinas não têm estudos de filosofia natural, nem se dão à contemplação das coisas naturais, contra alguns portugueses que quiseram afirmar o contrário. […]

Na cidade de Cantão, no meio do rio que é d’água doce e muito largo, está uma ilheta pequena, na qual está uma maneira de mosteiro de sua maneira de padres. E dentro neste mosteiro vi um oratório alto do chão, muito bem feito, com umas grades diante douradas e feitas ao torno. No qual estava uma mulher muito bem feita com um menino ao colo, e tinha uma alâmpada diante acesa. Suspeitando eu ser aquilo algum rasto de cristandade, perguntei a alguns seculares que ali achei, e a alguns dos sacerdotes dos ídolos que ali estavam, que significava aquela mulher, e não mo soube ninguém dizer, nem dar razão. Bem podia ser imagem de Nossa Senhora, feita pelos cristão antigos que ali deixou São Tomé, ou por sua ocasião feita. Mas a conclusão é que tudo é esquecido. Podia também ser alguma gentilidade.

Assim que o maior deus que têm é o céu, pelo qual a letra que o significa é o princípio e a primeira de todas as letras. Adoram o Sol e a Lua e as estrelas, e quantas imagens fazem, sem respeito nenhum. Têm todavia imagens de loutiás que adoram por haverem sido em alguma coisa ou coisas insignes. E assim [têm] estátuas e imagens dalguns sacerdotes dos ídolos e algumas doutros homens por alguns respeitos particulares. E não somente adoram estas imagens, mas quaisquer pedras que alevantam nos altares dentro dos seus templos.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)