Aos 25 do mes em quarta feira não apareseo o sol en todo o dia, com grande seração de molinha, chuiva meuda, que toda a noite como se a lua poem chove athe que torna a naçer, com vento norte fresco he ventante e as veses se faz nornoroeste, e aquy esta o tempo muito serado e de seos dobrados e muitos grosos e pretos, e o seo leve sempre corre mais largo que o vento. A proa foi a leste e a quarta do nordeste, eu dey a nao 33 legoas o caminho en leste e parte a quarta do sueste, faço estar a nao em 32 graos e meo, estou norte e sul com as Ilhas de Tristão da Cunha, mas vou enfadado por aver seis dias que não tomo o sol pera saber em que altura estou, casy não me aparese o sol pela menhã nem a tarde pera me aproveitar da demarcação d’agulha que por aquy mora, se he a nao a vante se a re. Vamos desvelejados porque o vento hera pera outra nao levar todo o pano, mas nos não podemos com mais que papafigos mormente de noite, porque não ha huma pessoa nesta nao que apareça de noite, porque os que estão em pe ficarão tão cortados das doenças que não ten força pera pegar em hum cabo, e qualquer comta que se faz he como cabrestante, e não ha oito marinheiros em pee e quatro ou sinquo grometes, e todos estes forão doentes e andão fracos, as necesidades são grandes na nao, he tanto que de 18 padres que ha nella não ha hum que encomende aos mortos em pee. Lembre çe Nosso Senhor de nos e a Virgem do Remedio Madre de Deos. Oje morrerão dous soldados, a noite outro soldado, grandes trabalhos e doensa e vay nos morendo gente.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)