Aos 26 do mes em quinta feira não tomey o sol por o tempo andar muito encuberto e não apareçeo o sol nunqua, e anda o çeo de noroeste atee leste tão serado de çeos grosos e ennevoados que, como a lua se põe, logo se tolda todo e não faz outra cousa mais que molinhar. A noite esteve boa athe lua se por, a proa foi a leste e quarta do nordeste, e vou asym porque ha sinco dias que não tomo o sol nem marqo agulha pera me não meter em muita altura athe ver algum sinal de serem paçadas estas Ilhas, posto que pello ponto estava avante delas. Eu dey a nao 28 legoas de caminho e dou Ilhas pella quarta do sueste, posto que governe a quarta de nordeste, porque com o mar e aribadas a nao deve de fazer este caminho, e faço estar em 32 graos e 3/4. O vento foi esta çangradura nornoroeste, ora se faz oesnoroeste com muita molinha, ao susudueste clarea e a norte sempre esta serado de seos negros e groços. Oje aparecião poucos feijõis e poucas corvas, dois borelhos, hum entenal grande he malhado de branco, hum alcatraz. Vamos muito atribulados com a doença, porque nos vay morendo gente e são grandes febres malinas, e morrem alguns com pintas de soligadão de sangue, e a pessoa que se sangra 20 veses com as recaiduas e cada sangria são 3 de Portugal, asy que não podemos marear a nao por falta de gente do mar, e dos soldados não ha nenhuns que tenham força pera nada e não ha ja pera cahir mais que quatro ou sinco pecoas . Lembre ce Nosso Senhor de nos e a Virgem do Remedio Madre de Deos he mayem. Vamos muito atribulados com doença porque nos morre gente e alguns con pintas e ate ja diante oje moreo hum soldado de bem, todos os padres da Companhia em camas, recahiduras, que he cousa lastimosa as nesesidades desta nao e asy não podemos dar vella.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)