35

As mulheres em Europa não vão fora de casa
sem licença de seus maridos;
as Japoas têm liberdade de irem por onde quiserem,
sem os maridos o saberem.

36

O amor dos parentes e parentas entre si
é em Europa muito grande;
em Japão muito pouco, e se hão uns pera com os
outros como estranhos.

37

Na Índia levam os moços sombreiros de pé
às mulheres pola chuva ou sol;
em Japão as mulheres os levam umas às outras.

38

Em Europa, posto que o haja, não é frequente
o aborcio das crianças;
em Japão é tão comum, que há mulher que aborta
vinte vezes.

39

Em Europa, depois de criança nacer, raras vezes
ou quasi nunca se mata;
As Japoas lhe põem o pé no pescoço e matam todos
os que lhe parece que não podem sustentar.

40

As mulheres prenhes em Europa largam
os cingidouros por não fazer mal à criança;
as Japoas até que pairam se apertam com
uma precinta tão rijamente que antre a precinta
e a carne lhe não possa caber a mão.[…]

45

Antre nós não é muito corrente saberem as mulheres
escrever;
nas honradas de Japão se tem por abatimento as que
o não sabem fazer.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Europa/Japão – Um Diálogo Civilizacional no Século XVI”, Apres. de José Manuel Garcia; Fixação de texto e notas por Raffaella D’Intino, Lisboa, CNCDP, 1993)