Junho 2007


“Viajando por terra, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva chegam a Aden, na Arábia. É enviada uma expedição de socorro a Ceuta, cercada pelos muçulmanos”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 – Abril de 2000)

Aos 27 do mes em sexta feira tomey o sol e ficey em 33 graos e meo. O vento foi toda esta sangradura ao sudueste e clareou, e esteve a noite e oje o dia muito claro e fermoso, louvores a Nosso Senhor. A proa foi a leste e a quarta de nordeste e contra ser este caminho foi sempre a nao qresendo en altura. Eu lhe dey o caminho quarta do sueste e se fez todos estes dias que não tomey o sol de altura de 32 graos. Vou governando a leste e  a quarta de nordeste porque o vento que hia esta tarde, o vento venta fresco e o mar he chão, ven do ventigo a vaga do mar pequena, outra ven larga do sul. Oje apareserão muitos borelhos, poucas corvas algumas das groças, forcados, muitos feijois. Oje marquey agulha e acho que me faz 14 graos de nordestear e mostra ser a nao a poente das Ilhas. Oje vi hum gaivotão. Lembre çe Nosso Senhor de nos e a Virgem do Remedio Madre de Deos, que nos queira alavantar tamanho mal e doença.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

46

Nas cartas que se escrevem antre nós a mulheres,
se assina o homem que a escreve;
em Japão as que se escrevem a mulheres não hão-de
levar sinal, nem elas em suas cartas se assinam,
nem põem mês nem era.[…]

51

Em Europa ordinariamente as mulheres fazem
de comer;
em Japão o fazem os homens, e os fidalgos têm
por primor i-lo fazer à cozinha.

52

Em Europa [os] homens são alfaiates,
e em Japão as mulheres.

53

Em Europa os homens comem em mesas altas
e as mulheres em baxas;
em Japão as mulheres em mesas altas e os homens
em baxas.

54

Em Europa se tem por afronta beberem
as mulheres vinho;
em Japão é muito frequente, e em festas bebem
às vezes até avinhançarem (?);[…]

60

Em Europa recebem as mulheres os hóspedes
alevantando-se em pé;
as de Japão os recebem deixando-se ficar assentadas
.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Europa/Japão – Um Diálogo Civilizacional no Século XVI”, Apres. de José Manuel Garcia; Fixação de texto e notas por Raffaella D’Intino, Lisboa, CNCDP, 1993)

Navegador quinhentista (séculos XV e XVI). Poucos dados existem sobre a sua biografia, sendo-lhe atribuída a descoberta das actuais ilhas da Reunião e Maurícia (situadas a leste de Madagáscar), onde terá desembarcado em 1511 ou 1512. É suposto que seja o mesmo navegador que foi tornado cavaleiro por Afonso de Albuquerque, depois de o acompanhar na expedição ao Mar Vermelho, em 1513.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

“D. João II envia Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva por terra até à Índia, a fim de colherem informações sobre a navegação e o comércio do Índico. Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança, confirmando a ligação entre os oceanos Atlântico e Índico. Gonçao Eanes e Pêro de Évora fazem uma viagem pelo interior africano”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 – Abril de 2000)

Aos 26 do mes em quinta feira não tomey o sol por o tempo andar muito encuberto e não apareçeo o sol nunqua, e anda o çeo de noroeste atee leste tão serado de çeos grosos e ennevoados que, como a lua se põe, logo se tolda todo e não faz outra cousa mais que molinhar. A noite esteve boa athe lua se por, a proa foi a leste e quarta do nordeste, e vou asym porque ha sinco dias que não tomo o sol nem marqo agulha pera me não meter em muita altura athe ver algum sinal de serem paçadas estas Ilhas, posto que pello ponto estava avante delas. Eu dey a nao 28 legoas de caminho e dou Ilhas pella quarta do sueste, posto que governe a quarta de nordeste, porque com o mar e aribadas a nao deve de fazer este caminho, e faço estar em 32 graos e 3/4. O vento foi esta çangradura nornoroeste, ora se faz oesnoroeste com muita molinha, ao susudueste clarea e a norte sempre esta serado de seos negros e groços. Oje aparecião poucos feijõis e poucas corvas, dois borelhos, hum entenal grande he malhado de branco, hum alcatraz. Vamos muito atribulados com a doença, porque nos vay morendo gente e são grandes febres malinas, e morrem alguns com pintas de soligadão de sangue, e a pessoa que se sangra 20 veses com as recaiduas e cada sangria são 3 de Portugal, asy que não podemos marear a nao por falta de gente do mar, e dos soldados não ha nenhuns que tenham força pera nada e não ha ja pera cahir mais que quatro ou sinco pecoas . Lembre ce Nosso Senhor de nos e a Virgem do Remedio Madre de Deos he mayem. Vamos muito atribulados com doença porque nos morre gente e alguns con pintas e ate ja diante oje moreo hum soldado de bem, todos os padres da Companhia em camas, recahiduras, que he cousa lastimosa as nesesidades desta nao e asy não podemos dar vella.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

35

As mulheres em Europa não vão fora de casa
sem licença de seus maridos;
as Japoas têm liberdade de irem por onde quiserem,
sem os maridos o saberem.

36

O amor dos parentes e parentas entre si
é em Europa muito grande;
em Japão muito pouco, e se hão uns pera com os
outros como estranhos.

37

Na Índia levam os moços sombreiros de pé
às mulheres pola chuva ou sol;
em Japão as mulheres os levam umas às outras.

38

Em Europa, posto que o haja, não é frequente
o aborcio das crianças;
em Japão é tão comum, que há mulher que aborta
vinte vezes.

39

Em Europa, depois de criança nacer, raras vezes
ou quasi nunca se mata;
As Japoas lhe põem o pé no pescoço e matam todos
os que lhe parece que não podem sustentar.

40

As mulheres prenhes em Europa largam
os cingidouros por não fazer mal à criança;
as Japoas até que pairam se apertam com
uma precinta tão rijamente que antre a precinta
e a carne lhe não possa caber a mão.[…]

45

Antre nós não é muito corrente saberem as mulheres
escrever;
nas honradas de Japão se tem por abatimento as que
o não sabem fazer.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Europa/Japão – Um Diálogo Civilizacional no Século XVI”, Apres. de José Manuel Garcia; Fixação de texto e notas por Raffaella D’Intino, Lisboa, CNCDP, 1993)

Descobridor (séculos XV e XVI). De origem humilde, carpinteiro e analfabeto, foi deixado como degredado na África Oriental, por volta de 1500. Tendo travado relações com o imperador de Monomotapa, desfrutou de enorme prestígio na região. É considerado o “descobridor de Monomotapa”.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

“Colombo muda-se para Castela e oferece os seus serviços aos Reis Católicos. É fundada a Casa dos Escravos. Azamor, no norte de África, cai em poder dos portugueses”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 – Abril de 2000)

Aos 25 do mes em quarta feira não apareseo o sol en todo o dia, com grande seração de molinha, chuiva meuda, que toda a noite como se a lua poem chove athe que torna a naçer, com vento norte fresco he ventante e as veses se faz nornoroeste, e aquy esta o tempo muito serado e de seos dobrados e muitos grosos e pretos, e o seo leve sempre corre mais largo que o vento. A proa foi a leste e a quarta do nordeste, eu dey a nao 33 legoas o caminho en leste e parte a quarta do sueste, faço estar a nao em 32 graos e meo, estou norte e sul com as Ilhas de Tristão da Cunha, mas vou enfadado por aver seis dias que não tomo o sol pera saber em que altura estou, casy não me aparese o sol pela menhã nem a tarde pera me aproveitar da demarcação d’agulha que por aquy mora, se he a nao a vante se a re. Vamos desvelejados porque o vento hera pera outra nao levar todo o pano, mas nos não podemos com mais que papafigos mormente de noite, porque não ha huma pessoa nesta nao que apareça de noite, porque os que estão em pe ficarão tão cortados das doenças que não ten força pera pegar em hum cabo, e qualquer comta que se faz he como cabrestante, e não ha oito marinheiros em pee e quatro ou sinquo grometes, e todos estes forão doentes e andão fracos, as necesidades são grandes na nao, he tanto que de 18 padres que ha nella não ha hum que encomende aos mortos em pee. Lembre çe Nosso Senhor de nos e a Virgem do Remedio Madre de Deos. Oje morrerão dous soldados, a noite outro soldado, grandes trabalhos e doensa e vay nos morendo gente.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

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