O Samori, posto que no ar do rosto recebeu Vasco da Gama com graça, tinha tamanha majestade, e assi estava grave naquele seu cátel, que não fez mais movimento par’ele, quando lhe falou, que levantar a cabeça da almofada; e des i acenou ao brâmane que o fizesse assentar em uns degraus do estrado em que tinha o cátel, e aos de sua companhia em outra parte um pedaço afastados, por ver que haviam mister algum repouso, segundo vinham afrontados do caminho. E depois que per um espaço grande esteve notando as pessoas, trajos e autos deles, e praticando em palavras gerais com Vasco da Gama, recebidas dele duas cartas que lhe mandava el-rei D. Manuel, hüa escrita em arábico e outra em língua português, que era da mesma substância, disse-lhe que ele as veria, e depois mais de vagar ouviria a ele; que por então se fosse a repousar. Que quanto ao seu gasalhado, visse com quem queria que fosse — se com mouros, ou com os naturais da terra, — pois ali não havia gente da sua nação, segundo tinha sabido.

Ao que Vasco da Gama respondeu que entre os mouros e cristãos havia diferença acerca da lei que tinham, e outras paixões particulares; e que com os seus vassalos, por ele e os da sua companhia não saberem seus costumes, e temiam de os poder enojar, pedia a sua real senhoria que os mandasse aposentar sem companhia algüa. O que aprouve ao Samori, mandando ao Catual que o contentasse; e louvou Vasco da Gama de homem prudente e cauteloso nas cousas da paz, segundo o mouro Monçaide lhe veo contando pelo caminho, até chegarem à cidade Calecut já bem noite

(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)

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