Outubro 2007


Canto V

4

“Assim fomos abrindo aqueles mares,
Que geração alguma não abriu,
As novas ilhas vendo e os novos ares,
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda; que à direita
Não há certeza doutra, mas suspeita.

5

“Passamos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assim se chama,
Das que nós povoamos, a primeira,
Mais célebre por nome que por fama:
Mas nem por ser do mundo a derradeira
Se lhe aventajam quantas Vénus ama,
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

6

“Deixamos de Massília a estéril costa,
Onde seu gado os Azenegues pastam,
Gente que as frescas águas nunca gosta
Nem as ervas do campo bem lhe abastam:
A terra a nenhum fruto enfim disposta,
Onde as aves no ventre o ferro gastam,
Padecendo de tudo extrema inópia,
Que aparta a Barbaria de Etiópia.

(“Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Rainha de Portugal (? – Toledo, 18 de Fevereiro de 1445) de 1433 a 1438. Filha de Fernando I de Aragão, em 1428 casou com o futuro rei D. Duarte, que veio a dedicar-lhe o Leal Conselheiro. Foi fiel companheira de D. Duarte e esteve presente nas horas boas e também nas más. Defendeu a expansão para o Norte de África e apoiou D. Henrique na realização da expedição a Tânger. Nomeada regente pelo marido, viu-se afastada do cargo por pressões do povo (1440), retirando-se de Portugal desiludida. Durante dois anos, tentou, com a ajuda de Castela e Aragão, reaver o governo. Mas o poder do regente D. Pedro era muito forte.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Novos mundos - Neue welten“Novos Mundos – Portugal e a Época dos Descobrimentos” é uma exposição organizada pelo Deutsches Historisches Museum, um dos mais prestigiados museus alemães (associado neste empreendimento ao Instituto Camões e à Embaixada de Portugal em Berlim), tendo por tema o papel global que Portugal desempenhou entre os séculos XV e XVII, elucidando sobre as ligações e conflitos internacionais surgidos em consequência das viagens de descobrimentos, apresentando exemplos dos desenvolvimentos científico e técnico-históricos bem como de história de arte e religiosos.

Esta exposição é inaugurada hoje, estando patente em Berlim até ao próximo dia 10 de Fevereiro de 2008, nela sendo expostos mais de 300 objectos (arte, cartografia, documentos de arquivo) provenientes de museus e instituições portuguesas e estrangeiras, nomeadamente o códice “Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama à Índia” (propriedade da Biblioteca Pública Municipal do Porto).

Canto V

(Partida)

1

“Estas sentenças tais o velho honrado
Vociferando estava, quando abrimos
As asas ao sereno e sossegado
Vento, e do porto amado nos partimos.
E, como é já no mar costume usado,
A vela desfraldando, o céu ferimos,
Dizendo: “Boa viagem”, logo o vento
Nos troncos fez o usado movimento.

2

“Entrava neste tempo o eterno lume
No animal Nemeio truculento,
E o mundo, que com tempo se consume,
Na sexta idade andava enfermo e lento:
Nela vê, como tinha por costume,
Cursos do sol quatorze vezes cento,
Com mais noventa e sete, em que corria,
Quando no mar a armada se estendia.

3

“Já a vista pouco e pouco se desterra
Daqueles pátrios montes que ficavam;
Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam;
E já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais enfim que mar e céu.

(“Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Militar (século XVI). Segundo duque de Aveiro, até à morte de seu pai utilizou o título de marquês de Torres Novas, com o qual participou nas Cortes de 1562 e 1568. Acompanhou D. Sebastião na sua primeira incursão a África, em 1574. Posteriormente esteve em Guadalupe e assumiu o comando de uma força de cavalaria na Batalha de Alcácer Quibir, onde viria a falecer.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Canto IV

(Velho do Restelo)

102

– “Ó maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pôs em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória.

103

– “Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu
Em mortes, em desonras (grande engano).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera!

104

– “Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande Arquiteto co’o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição!”

(“Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Rainha de Portugal (Inglaterra, 1360 – Odivelas, 18 de Julho de 1415), era filha dos duques de Lencastre, neta de Eduardo III de Inglaterra e irmã de Henrique IV. Viveu a infância numa propriedade rural da família, tendo sido educada com os irmãos mais novos. Seria, aliás, a filha dilecta do pai. A 2 de Fevereiro de 1387, casou-se com D. João I, durante uma cerimónia que se realizou no Porto. Entre 1387 e 1402, teve oito filhos. Mãe daqueles que se incluíram naquela que foi chamada a Ínclita Geração. Ignora-se, contudo, qual a amplitude do papel e da influência que terá tido na educação dos filhos. Promoveu o estreitamento das relações Portugal-Inglaterra e, na corte, manteve uma série de súbditos ingleses ao seu serviço. Introduziu na corte costumes e hábitos de educação e cultura da sua terra natal. Era uma pessoa religiosa e até certo ponto dotada de espírito de cruzada contra os infiéis. Em Portugal, tentou introduzir alguns dos costumes religiosos de Inglaterra, entrando por vezes em conflito com membros do clero ao tentarem determinar quem tinha razão no cumprimento das regras. Atacada pela peste, armou os três filhos mais velhos cavaleiros nas vésperas da partida para Ceuta, uma expedição que apoiou abertamente. Foi sepultada no Mosteiro da Batalha.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Canto IV

(Velho do Restelo)

98

– “Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência,
Não somente do reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta e da simples inocência,
Idade d’ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d’armas te deitou:

99

– “Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidades
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la quem a dá:

100

– “Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

101

– “Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?

(“Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Diplomata da Restauração (? – 1664). São escassos os registos sobre a sua actividade, mas sabe-se que foi familiar de D. João IV, governou Ceuta e, em 1642, foi capitão-mor de Montemor-o-Novo. Foi enviado como diplomata à Holanda, a França e a Roma. Enviuvou e ingressou na Ordem de São Domingos.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Canto IV

(Velho do Restelo)

94

“Mas um velho d’aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C’um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95

– “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

96

– “Dura inquietação d’alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

97

– “A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D’ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

(“Os Lusíadas”, Luís de Camões)

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