Cronista (Lisboa?, 1380-1390? – Lisboa, 1460?). Provavelmente oriundo de uma família humilde, poucos registos existem da sua vida pessoal, ignorando-se mesmo a data em que nasceu. Presenciou três reinados, tendo sido secretário de D. João I, de D. Duarte e do infante D. Fernando. Notário de profissão, em 1418 foi nomeado “guardador das escrituras da Torre do Tombo” (em substituição de Gonçalo Gonçalves), cargo que acumulou com o de escrivão dos livros de D. João I. Rapidamente foi ganhando prestígio, o que lhe valeu novos cargos. Em 1422, era escrivão da puridade do infante D. Fernando, cargo que manteve até à morte do infante, em 1433, tendo sido o responsável pela redacção do seu testamento. Foi também nomeado tabelião-geral, o que o habilitava a exercer essa actividade em qualquer ponto do reino, e de 1431 a 1451 exerceu funções de cronista. Ao serviço de D. Duarte, foi encarregado de redigir a crónica geral do reino, de escrever sobre todos os monarcas até D. Fernando e também sobre D. João I. Por volta de 1452, abandonou as funções de guarda-mor da Torre do Tombo, cargo que posteriormente passaria a ser exercido por Zurara. Da sua vasta produção resta a Crónica de D. Pedro I, a Crónica de D. Fernando e a Crónica de D. João I, que não concluiu. As cópias mais antigas do livro referente a D. João I são dois manuscritos do século XVII, que devem ser cópias do original. A grande fonte de informação sobre os acontecimentos que levaram à criação da Dinastia de Aviz, assenta, precisamente, nos seus escritos. Considerado o maior cronista português de sempre e o primeiro historiador nacional, Fernão Lopes inovou e, devido ao seu talento, é também apresentado, por muitos, como a maior personalidade da literatura medieval portuguesa. Nos seus relatos, revelou uma atitude crítica em relação à história. Ultrapassou a concepção medievalista da história ao basear o relato histórico nas fontes, testemunhos ou documentos, ao dar várias versões do mesmo acontecimento, documentando a sua interpretação, e ao analisar os factos históricos, indo às raízes, estabelecendo relações entre elas e vinculando o desenrolar da história política à história económica. São apurados o seu sentido da justiça e isenção. Notável é, igualmente, o poder de análise, caracterização e dramatismo das suas personagens e acontecimentos, animados de dinamismo envolvente que transforma o leitor em testemunha presencial. O povo é transportado pelo cronista para a faceta de personagem, o que denota a proximidade e o envolvimento do autor com a classe. Residiu em Lisboa, nas imediações da igreja de S. Miguel em Alfama e também detinha uma propriedade na Aldeia Galega (actual Montijo), que adquiriu em 1439.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)