Canto V

64

“Estes, como na vista prazenteiros
Fossem, humanamente nos trataram,
Trazendo-nos galinhas e carneiros,
A troco doutras peças, que levaram.
Mas como nunca enfim meus companheiros
Palavra sua alguma lhe alcançaram
Que desse algum sinal do que buscamos,
As velas dando, as âncoras levamos.

65

“Já aqui tínhamos dado um grã rodeio
A costa negra de África, e tornava
A proa a demandar o ardente meio
Do Céu, e o pólo Antarctico ficava:
Aquele ilhéu deixamos, onde veio
Outra armada primeira, que buscava
O Tormentório cabo, e descoberto,
Naquele ilhéu fez seu limite certo.

66

Daqui fomos cortando muitos dias
Entre tormentas tristes e bonanças,
No largo mar fazendo novas vias,
Só conduzidos de árduas esperanças.
Colo mar um tempo andamos em porfias,
Que, como tudo nele são mudanças.
Corrente nele achamos tão possante
Que passar não deixava por diante.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)