E uma quinta-feira, que foi o primeiro dia do mês de Março, à tarde, houvemos vista das ilhas e da terra que se ao diante seguem; e, porque era tarde, virámos na volta do mar e pairámos até pela manhã. E então viemos entrar em a terra seguinte. […].

Os homens desta terra são ruivos e de bons corpos e da seita de Mafamede e falam como mouros; e as suas vestiduras são de panos de linho e de algodão, muito delgados e de muitas cores de listras, e são ricos e lavrados; e todos trazem toucas nas cabeças, com vivos de seda lavrados com fio de ouro; e são mercadores e tratam com mouros brancos, dos quais estavam aqui, em este lugar, quatro navios deles que traziam ouro, prata e pano e cravo e pimenta e gengibre e anéis de prata com muitas pérolas e aljôfar e rubis; e isso mesmo todas estas coisas traziam os homens desta terra. E ao que nos parecia, segundo eles diziam, que todas estas coisas vinham aqui de carreto e que aqueles mouros as traziam, salvo o ouro; e que para diante, para onde nós íamos, havia muito; e que as pedras e aljôfar e especiaria eram tantos que não era necessário restagatá-los, mas apanhá-los aos cestos. E isto tudo entendia um marinheiro, que o capitão-mor levava, o qual fora cativo de mouros e, portanto, entendia estes que aqui achámos. E mais disseram os ditos mouros que, neste caminho que levávamos, acharíamos muitos baixos, e que também acharíamos muitas cidades ao longo do mar; e que havíamos de ir tocar com uma ilha, em que estavam a metade mouros e a metade cristãos, os quais cristãos tinham guerra com os mouros; e que em esta ilha havia muita riqueza.

Mais nos disseram que [o] Preste João estava dali perto, e que tinha muitas cidades ao longo do mar, e que os moradores delas eram grandes mercadores e tinham grandes naus. Mas o Preste João estava muito dentro pelo sertão, e que não podia lá ir senão em camelos. Os quais mouros traziam aqui uns dois cristãos índios cativos. E estas coisas e outras muitas diziam estes mouros, do que éramos tão ledos que com prazer chorávamos; e rogámos a Deus que Lhe aprouvesse de nos dar saúde, para que víssemos o que todos desejávamos.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Relação da Primeira Viagem de Vasco da Gama (1497-1499)”, introd. e notas de Luís de Albuquerque, Lisboa, CNCDP/ME, 1989)