E ao outro dia isso mesmo vieram estes barcos aos nossos navios, e o capitão-mor mandou um dos degredados a Calecut; e aqueles com que ele ia levaram-no aonde estavam dois mouros de Tunes, que sabiam falar castelhano e genovês. E a primeira salva que lhe deram foi esta, que se ao diante segue: «Ao diabo que te dou; quem te trouxe cá?». E perguntaram-lhe o que vínhamos buscar tão longe; e ele respondeu: «Vimos buscar cristãos e especiaria.» Eles lhe disseram: «Porque não manda cá el-rei de Castela e el-rei de França e a senhoria de Veneza». E ele lhe respondeu que el-rei de Portugal não queria consentir que eles cá mandassem, E eles disseram que fazia bem. Então o agasalharam e deram-lhe de comer pão [de] trigo com mel. E depois que comeu veio-se para os navios, e veio com ele um daqueles mouros, o qual, tanto que foi em os navios, começou de dizer estas palavras: «Buena ventura, buena ventura; muitos rubis, muitas esmeraldas. Muitas graças deveis de dar a Deus por vos trazer a terra onde há tanta riqueza.» Era para nós isto [de] tanto espanto que o ouvíamos falar e não críamos que homem houvesse, tão longe de Portugal, que nos entendesse nossa falta.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Relação da Primeira Viagem de Vasco da Gama (1497-1499)”, introd. e notas de Luís de Albuquerque, Lisboa, CNCDP/ME, 1989)