Maio 2008


Piloto (séculos XVI e XVII). Alcançou o lugar de piloto-mor do Reino. Foi sota-piloto das naus São Tomé e São Filipe. Já como piloto, entre 1595 e 1596, pilotou a São Pantaleão, de Lisboa à Índia e no regresso. Rumou novamente ao Oriente em 1597 e, no regresso, pilotou a Santa Maria do Castelo, mas viajaria outras vezes ao Oriente. Deixou importantes escritos, como Roteiro da Navegação da Carreira da Índia e Tratado dos Grandes Trabalhos que Passarão os Portugueses que se Salvarão do Espantoso Naufrágio que Fez a Nau São Tomé.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Fogo de Artifício encerramento EXPO'98

(Foto de Manuel Pedro Sérgio)

A Expo’98 abre as suas portas ao público.

(via “A Cidade da EXPO’98 – Uma Reconversão na Frente Ribeirinha de Lisboa?”, Vítor Matias Ferreira e Francisco Indovina, Editorial Bizâncio, Lisboa, 1999)

Cartógrafo e cosmógrafo (século XVI). Tornou-se conhecido através de uma carta que escreveu a partir de Goa a D. João III. Foi vedor da Fazenda e escreveu cartas de marear.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Esta cidade de Calecut é de cristãos, os quais são homens baços. E andam deles com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos, e outros trazem as cabeças rapadas e outros tosquiados; e trazem em a moleira uns topetes, por sinal que são cristãos; e nas barbas bigodes. E trazem as orelhas furadas, e nos buracos delas muito ouro; e andam nus da cinta para cima, e para baixo trazem uns panos de algodão muito delgados; e estes que assim andam vestidos são os mais honrados, que os outros trajam-se como podem. As mulheres desta terra em geral são feias e de pequenos corpos; e trazem ao pescoço muitas jóias de ouro, e pelos braços muitas mantilhas, e nos dedos dos pés trazem anéis com pedras ricas. Toda esta gente é de boa condição e são maviosos, quanto ao que parecem; e são homens que, segundo a primeira fase, sabem pouco e são muito cobiçosos. […]

E daqui nos fomos e, à entrada da cidade, nos levaram a outra, a qual tinha estas mesmas coisas acima contadas. Aqui recresceu a gente muito, que nos vinha ver, que não cabia pelo caminho. E, depois que fomos por esta rua um grande pedaço, meteram o capitão em uma casa e também nós outros com ele, por respeito da gente que era muita. Aqui mandou el-rei um irmão do bale, o qual era grande senhor nesta terra, o qual vinha para ir com o capitão, e trazia muitos tambores e anafis e charamelas e uma espingarda, a qual ia atirando ante nós; e assim levaram o capitão com muito acatamento, tanto e mais do que se podia em Espanha fazer a um rei. E a gente era tanta que não tinha conto; e os telhados e casas eram todos cheios, afora a que connosco ia de roldão, entre a qual gente iriam ao menos dois mil homens de armas; e quanto mais nós chegávamos para os paços, onde el-rei estava, tanto mais gente recrescia. E, tanto que chegámos ao paço, vieram para o capitão homens muito honrados e grandes senhores, afora outros muito que já iam com ele; e seria uma hora de sol quando chegámos aos paços; entrámos por uma porta a um terreiro muito grande e, antes que chegássemos à porta onde el-rei estava, passámos quatro portas, as quais passámos por força dando muitas pancadas à gente; e quando chegámos à derradeira porta, onde el-rei estava, saiu de dentro um velho, homem baixo de corpo, o qual é como bispo, e o rei se rege por ele nas coisas da igreja; o qual abraçou o capitão à entrada desta porta, e à entrada dela se feriram homens e nós entrámos com muita força. El-rei estava em um patim, lançado de costas em uma camilha, a qual tinha estas coisas: um pano de veludo verde debaixo e, em cima, um colchão muito bom; e, em cima do colchão, um pano de algodão muito alvo e delgado, mais do que nenhum linho; e também tinha almofadas deste teor; e tinha à mão esquerda uma copa de ouro muito grande, da altura de um pote de meio almude, e era da largura de dois palmos na boca, a qual era muito grossa, ao parecer; na qual talha lançava bagaço de umas ervas, que os homens desta terra comem pela calma, a qual erva chamam atambor; e da banda direita estava um bacio de ouro, quanto um homem pudesse abranger com os braços, em o qual estavam aquelas ervas, e muitos agomis de prata, e o céu de cima era todo dourado. E assim, quando o capitão entrou, fez sua reverência, segundo costume daquela terra, a qual é juntar as mãoes e levantá-las para o céu, como costumam os cristãos levantar a Deus; e, assim como as levantam, abrem-nas e cerram os punhos mui asinha. E ele acenou ao capitão, com a mão direita, que se fosse para debaixo daquele cerrado onde ele estava; porém o capitão não chegava a ele, porque o costume da terra é não chegar nenhum homem ao rei, salvo chegava a ele um seu privado que lhe estava dando aquelas ervas; e quando algum homem lhe fala tem a mão ante a boca, e está arredado. Assim como acenou ao capitão olhou para nós outros, e mandou que nos assentássemos em um poial, perto dele, em lugar que nos via ele estar; e mandou-nos dar água às mãos, e mandou trazer uma fruta, que é feita como melões, salvo que de fora são crespos, mas de dentro são doces; e também nos mandou trazer outra fruta, que é como figos e sabe muito bem; e tínhamos homens que no-los estavam aparando, e el-rei estava olhando como nós comíamos, e estava-se rindo para nós; e falava com aquele seu privado, que estava à sua ilharga dando-lhe a comer aquelas ervas. E depois disto olhou ao capitão, que estava sentado defronte, e disse que falasse com aqueles homens com que estava, que eram muito honrados, e que lhes dissesse o que ele quisesse, e que eles lho diriam; respondeu o capitão-mor que ele era embaixador de el-rei de Portugal, e que lhe trazia uma embaixada e que não a havia de dar salvo a ele; disse el-rei que era muito bem, e logo o mandou levar dentro, a uma câmara; e, quando foi dentro, el-rei se levantou donde estava e se foi para o capitão, e nós ficámos em aquele lugar. Isto seria ali junto com o sol-posto; e, assim quando el-rei se alevantou, foi logo um homem velho que estava dentro, naquele patim, e levantou a camilha; e a baixela ficou ali; el-rei quando foi onde estava o capitão, lançou-se em outra camilha, em que estavam muitos panos lavrados de ouro, e fez pergunta ao capitão: que era o que queria? E o capitão lhe disse como ele era embaixador de um rei de Portugal, o qual era senhor de muita terra e era muito rico de todos as coisas, mais que nenhum rei daquelas partes; e que havia sessenta anos que os reis seus antecessores mandavam, cada ano, navios a descobrir aquelas partes, porquanto sabiam que, em aquelas partes, havia reis cristãos como eles. E que, por este respeito, mandavam a descobrir esta terra, e não porque lhes fosse necessário ouro nem prata, porque tinham tanto em abundância que lhes não era necessário havê-los desta terra; os quais capitães [desses navios] iam e andavam lá um ano e dois, até que lhes falecia o mantimento, e sem acharem nada voltavam para Portugal; e que agora um rei, que se chamava D. Manuel, lhe mandara fazer estes três navios e o mandara por capitão-mor deles; e lhe dissera que se ele não tornasse a Portugal até que lhe não descobrisse este rei dos cristãos, e que se tornasse que lhe mandaria cortar a cabeça; e que se o achasse que lhe desse duas cartas, as quais cartas lhe ele daria ao outro dia; e que assim lhe manda dizer, por palavras, que ele era seu irmão e amigo. El-rei respondeu a isto, e disse que ele fosse bem-vindo, e que assim o havia ele por irmão e amigo, e que ele lhe mandaria embaixadores a Portugal com ele; dizendo o capitão que assim lho pedia de mercê, porquanto ele não ousaria aparecer presente [a] el-rei, seu senhor, se não levasse alguns homens da sua terra. Estas e outras muitas coisas passaram [entre] ambos, dentro daquela câmara; e, porquanto era já muito noite, el-rei disse que: com quem queria ele pousar, se com cristãos, se com mouros? E o capitão lhe respondeu que nem com cristãos, nem com mouros; e que lhe pedia por mercê que lhe mandasse dar uma pousada sobre si, em que não estivesse ninguém; e el-rei disse que assim o mandava; e nisto se despediu o capitão de el-rei, e veio ter connosco onde estávamos lançados em uma varanda onde estava um grande castiçal de arame que nos alumiava; e isto seriam já bem quatro horas da noite. […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Relação da Primeira Viagem de Vasco da Gama (1497-1499)”, introd. e notas de Luís de Albuquerque, Lisboa, CNCDP/ME, 1989) 

Passaporte EXPO

Inauguração oficial da Expo’98. 200 VIP, 3600 convidados e 1300 crianças assistem à inauguração.

(via “A Cidade da EXPO’98 – Uma Reconversão na Frente Ribeirinha de Lisboa?”, Vítor Matias Ferreira e Francisco Indovina, Editorial Bizâncio, Lisboa, 1999)

Foi primeiro conde D. Vasco Coutinho, que viveu nos séculos XV e XVI (morreu em 1522). Recebeu o título de conde de Borba, através de carta de D. João II, datada de 16 de Março de 1486. Catorze anos depois trocou o título pelo de conde de Redondo (carta de D. Manuel de 2 de Junho de 1500), uma vez que Borba foi doada ao quarto duque de Bragança, D. Jaime, mas em toda a sua vida foi conhecido por conde de Borba. Caiu nas boas graças de D. João II ao avisá-lo da iminência de um atentado contra a sua vida (o que motivou feroz reacção do monarca contra os implicados, que foram mortos ou presos), tendo obtido logo nessa altura, como gratidão, o título de conde. Pouco depois, D. Vasco Coutinho foi para África. Conseguiu prender em Arzila o alcaide de Alcácer-Quibir, que teve de pagar, e bem, pelo seu resgate. Esta vitória rendeu a paz naquela praça africana por alguns anos e D. João II não teve dúvidas em entregar a capitania ao conde e seus descendentes. Só em Outubro de 1508 se voltaria a combater em Arzila, quando o emir de Fez resolveu cercá-la com um exército numeroso. O conde, ferido logo no início do cerco, não abandonou o castelo, aguardando por socorro, que veio do seu cunhado, D. João de Meneses, e de uma força naval espanhola estacionada em Cádis. O cerco foi então levantado, mas o emir voltou um ano depois, só que agora as defesas eram mais consistentes e o chefe mouro abdicou das intenções. Em 1511, foi a vez do conde sair em socorro de D. Duarte de Meneses, conde de Viana e capitão de Tânger, e dois anos depois tomou parte na célebre expedição a Azamor. Regressou ao reino em 1514, coberto de glória, sendo recompensado com uma avultada tença vitalícia e alcaidaria de Santarém. Sucedeu-lhe no título seu filho, D. João Coutinho, que faleceu em 1542 (ou 1548), um dos mais famosos capitães em África. Além de excelente militar foi também um homem culto e íntegro, ao ponto de ser admirado inclusive pelos seus adversários mouros. Sobre D. João Coutinho escreveu Camões: “Vós, honra portuguesa e dos Coutinhos / Ilustre Dom João, com melhor nome / A vós encheis de glória e a nós de exemplo”. Deteve a capitania de Arzila por duas vezes, a primeira de 1514 a 1525 e a segunda entre 1529 e 1538, ano em que assinou um tratado de paz com os mouros por um período de onze anos. Os serviços em África foram de tal forma apreciados no reino que recebeu, como compensação, o cargo de conselheiro de Estado. O título foi-lhe renovado por D. João III através de carta de 10 de Outubro de 1523. Sucedeu-lhe no título seu filho, D. Francisco Coutinho (1517-1564), que também capitaneou a praça de Arzila, mas já numa época em que a presença portuguesa em África começava a dar sinais de fraqueza. D. João III, já depois de ter ordenado a evacuação de Safim e Azamor, decidiu em 1549 largar também as praças de Arzila e Alcácer Ceguer. O conde ainda conseguiu grandes feitos, como o de 1548, em que chegou a combater os mouros até junto de Alcácer-Quibir. De regresso ao reino foi devidamente recompensado, inclusive com a confirmação do condado, a 13 de Dezembro de 1552. Em 1561 foi nomeado vice-rei da Índia, onde o poderio português também entrara em decadência. Luís de Camões encontrava-se na Índia ao tempo em que o conde foi designado vice-rei e beneficiou da sua protecção. O grande poeta também lhe dedicou algumas rimas. Foi quarto conde seu filho, D. Luís Coutinho, que morreu na Batalha de Alcácer-Quibir, travada a 4 de Agosto de 1578. O título foi-lhe confirmado pelo cardeal D. Henrique, regente na menoridade de D. Sebastião, através de carta datada de 28 de Outubro de 1564. Também D. Sebastião lhe concedeu nova confirmação, através de carta de 5 de Maio de 1573, na qual lhe acrescentou mais uma vida. Sucedeu-lhe no título seu irmão D. João Coutinho, que também combateu em Alcácer-Quibir, tendo conseguido resgatar-se. Foi depois nomeado governador da Índia com a categoria e título de vice-rei.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

E ao outro dia isso mesmo vieram estes barcos aos nossos navios, e o capitão-mor mandou um dos degredados a Calecut; e aqueles com que ele ia levaram-no aonde estavam dois mouros de Tunes, que sabiam falar castelhano e genovês. E a primeira salva que lhe deram foi esta, que se ao diante segue: «Ao diabo que te dou; quem te trouxe cá?». E perguntaram-lhe o que vínhamos buscar tão longe; e ele respondeu: «Vimos buscar cristãos e especiaria.» Eles lhe disseram: «Porque não manda cá el-rei de Castela e el-rei de França e a senhoria de Veneza». E ele lhe respondeu que el-rei de Portugal não queria consentir que eles cá mandassem, E eles disseram que fazia bem. Então o agasalharam e deram-lhe de comer pão [de] trigo com mel. E depois que comeu veio-se para os navios, e veio com ele um daqueles mouros, o qual, tanto que foi em os navios, começou de dizer estas palavras: «Buena ventura, buena ventura; muitos rubis, muitas esmeraldas. Muitas graças deveis de dar a Deus por vos trazer a terra onde há tanta riqueza.» Era para nós isto [de] tanto espanto que o ouvíamos falar e não críamos que homem houvesse, tão longe de Portugal, que nos entendesse nossa falta.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Relação da Primeira Viagem de Vasco da Gama (1497-1499)”, introd. e notas de Luís de Albuquerque, Lisboa, CNCDP/ME, 1989) 

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