E chegamos assim ao que se pode considerar a quarta escala-tipo de referenciação no itinerário da Índia, depois do ilhéu da Cruz, do Zambeze e da ilha de Moçambique. […]

Em Melinde, no que considero ser a quarta escala-tipo, a alteridade – que se sabe existir e que no texto aflora enquanto realidade pressuposta – é secundarizada pelo esforço de identificação pela via do poder. Ou seja, por outras palavras, nas escalas anteriores, encontramos duas culturas, duas civilizações, e, partir da ilha de Moçambique – duas religiões.

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No dia 22 de Abril, conta Álvaro Velho, Vasco da Gama manda dizer ao sultão «que lhe mandasse os pilotos que lhe tinha prometido. E, como foi o recado, el-rei lhe mandou logo um piloto cristão… E folgámos muito com o piloto cristão que el-rei nos mandou». […]

Seja quem tenha sido este piloto, a sua intervenção foi fundamental para o êxito da última rota de Gama, desde Melinde a Calecute. Na realidade, os Portugueses, apesar de todas as iniciativas anteriores (nomeadamente a de Pêro da Covilhã), têm um conhecimento extremamente deficiente da geografia e das características desta região.

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Foram 23 dias de viagem. Lê-se no roteiro que a 29 de Abril «houvemos vista do Norte, o qual havia muito que deixáramos de ver. E uma sexta-feira, que foram 18 de Maio, vimos uma terra alta, a qual havia vinte e três dias que não víramos terra». Finalmente avistam terra indostânica.

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Tendo chegado às costas ocidentais da Índia, Vasco da Gama situa-se nas proximidades de Calecute, no dia 20 de Maio.

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Dias depois, Vasco da Gama, acompanhado de doze homens, vai visitar o samorim.

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Calecute constitui, assim, a quinta e última escala-tipo de referenciação no itinerário da Índia. Objectivo de toda a viagem, nesta cidade se assumem os contornos finais da aventura. Começam por ser os contornos do fracasso da negociação política: aqui já não é possível manter a encenação ensaiada em Melinde. E terminam por ser os contornos das motivações mercantis, a condicionarem tudo o que aí se passa: são estas motivações que estão na mente dos muçulmanos que intrigam junto do samorim, são elas que acabam por aflorar no comportamento dos portugueses e no próprio texto de Álvaro Velho.

“Vasco da Gama – O Homem, A Viagem, A Época”, Luís Adão da Fonseca, Edição do Comissariado da Exposição Mundial de Lisboa de 1998 e da Comissão de Coordenação da Região do Alentejo, 1997, pp. 164, 165, 167, 171, 172 e 181

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