Outubro 2008


Obra fundada na mais moderna bibliografia e assente em aparato crítico, impõe-se como um grande quadro das viagens terrestres e marítimas a que a Humanidade assistiu ao longo dos tempos. Na parte VI refere-se aos descobrimentos que nos séculos XV e XVI deram uma nova imagem do mundo e alargaram o conhecimento do homem. Nos capítulos 21 a 24, o autor reconhece a acção pioneira dos portugueses no processo da expansão europeia na África, no Oriente e na América. Com mestria põe em relevo os móbeis desse processo, a visão esclarecida dos seus condutores e o papel dos navegantes que contribuíram para o destino histórico de Portugal.

O Professor Boorstin construiu uma verdadeira saga dos descobrimentos portugueses, onde reis e marinheiros, mercadores e religiosos, cronistas e viajantes surgem redivivos através do seu esmerado talento literário. O autor não precisou de escrever muito para traçar a sua história, nem de recorrer à apologia para ser fiel à verdade dos acontecimentos. Ergueu uma obra documentada e séria, o que justifica a iniciativa da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses de proceder à reprodução dos mencionados capítulos da edição original.

“The Portuguese Discoverers”, from “The Discoverers”, Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Anúncios

Contra versões menos correctas sobre a essência e significado dos descobrimentos, a historiografia contemporânea reconhece hoje as grandes verdades implícitas no carácter prioritário e original da expansão portuguesa. A ciência náutica e a história documental mostram o papel decisivo que Portugal desempenhou na abertura de novos mundos. Nos últimos anos, várias obras se têm consagrado, no país e no estrangeiro, ao estudo da problemática dos descobrimentos. Mas nenhuma parece ter obtido maior audiência que o livro The Discoverers (Nova Iorque – Toronto, 1983), da autoria do Professor Daniel J. Boorstin, antigo director da Biblioteca do Congresso.

“The Portuguese Discoverers”, from “The Discoverers”, Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

As viagens portuguesas permitiram a abertura de novas rotas, o aproveitamento de novas terras e o contacto com novas civilizações. Tendo de início a orientação do Infante D. Henrique (1394-1460), que a História celebrizou como o Príncipe Navegador, os descobrimentos tiveram depois no Rei D. João II (1455-1495) o homem de pensamento superior que deu à empresa uma expressão universal. Mas o empreendimento contou também com o esforço dos homens do mar – capitães, pilotos, roteiristas, artífices e cartógrafos –, que sentiram a empresa como um imperativo nacional. Na identificação do poder soberano e da vontade colectiva, os descobrimentos assumiram-se em Portugal como a voz de uma comunidade que tinha consciência de um grande ideal.

“The Portuguese Discoverers”, from “The Discoverers”, Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Os descobrimentos quatrocentistas deveram-se, na sua primeira fase, à acção dos portugueses. Mais do que a aventura de uma pequena Nação, que deixou o espaço ibérico para enfrentar o desconhecido, as viagens marítimas surgem como a mensagem da Europa latina e cristã transplantada para outros mares e continentes. Se outras nações seguiram depois a rota dos oceanos – Castela ainda no século XV, a Inglaterra, a França e a Holanda no século XVI –, deveram-no ao esforço prioritário dos portugueses. Foram os meios técnicos e a experiência marítima destes que abriram as condições pioneiras para fazer dos descobrimentos uma epopeia universal.

“The Portuguese Discoverers”, from “The Discoverers”, Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

O estudioso australiano Peter Trickett defende terem os portugueses descoberto a Austrália 250 anos antes do capitão James Cook e está a preparar um documentário televisivo sobre esta matéria.

Em declarações à Lusa, o autor mostrou-se convencido de que, pela experiência que já teve com o seu livro, “Para além de Capricórnio”, em que procura demonstrar que os portugueses aportaram aquelas paragens pelo menos 250 anos antes do capitão James Cook em 1770, “o público em geral irá ter grande interesse”.

“A tese da descoberta portuguesa da Austrália tem um bom acolhimento por parte do leitor comum, que a aceita bem. O mesmo não acontece no meio académico, que acha que não é possível e não pode ser verdadeira, apesar das provas apontadas”, disse Trickett.

Segundo o historiador, terá sido o navegador Cristóvão Mendonça, por volta de 1522, o primeiro português a avistar as costas australianas, quando navegava na zona por ordem de D. Manuel I, que o enviara em busca da “ilha de Ouro” citada nos relatos de Marco Pólo.

Trickett fundamentou esta sua afirmação em mapas de origem portuguesa que cartografaram parcialmente a Austrália já no século XVI, tendo-lhe atribuído o nome de “Terra de Java”.

Mendonça terá ancorado ao largo da actual Botany Bay, que cartografou, referindo as “montanhas de neve”, dunas de areia branca que ali existiram até serem domadas pela relva de um campo de golfe, segundo declarações do autor à Lusa.

O estudioso australiano menciona ainda os cerca de 150 topónimos australianos “de clara origem portuguesa”.

“Que explicação se pode dar para tal?”, questionou.

Além dos mapas de origem portuguesa, Trickett aponta o aparecimento em mares australianos de dois potes de cerâmica de estilo português. Um deles foi datado como sendo do ano 1500, o da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, o outro aguarda datação.

Na área arqueológica cita-se também a descoberta de um peso de pesca com 500 anos, em Fraser Island, no Estado australiano de Queensland.

A política de sigilo das monarquias ibéricas, designadamente dos reis D. João II e D. Manuel I, e que terá encoberto o conhecimento do Brasil, foi também praticada relativamente a esta “Terra de Java”, a Austrália actual, defende o historiador.

Tudo aponta, seguindo Trickett, para “uma clara antecipação da descoberta da Austrália pelos portugueses, a mando de D. Manuel I na busca da ilha de ouro”. Hoje, a Austrália é o terceiro maior produtor mundial de ouro.

Os meios académicos não aceitam esta tese, ao contrário do que aconteceu com a tese da primazia da descoberta Viking da América do Norte, que, após provas arqueológicas apresentadas por Helge Ingsrad, é hoje amplamente aceite.

Para Trickett, “a natureza humana é o que é, não aceita ter-se enganado ou dizer que errou, tanto mais quando se trata de académicos, com teses e trabalhos teóricos publicados sobre o assunto, a terem de admitir que erraram”.

Acresce a esta “negação da primazia lusa” o facto de Peter Trickett não ser um académico, vir do meio jornalístico e não universitário.

“É certo que dizem que a tese é errada, insustentável, mas não fizeram até hoje qualquer crítica séria do ponto de vista científico. Penso que acham que a minha tese é difícil de combater e preferem não dizer nada de concreto”, sublinhou.

O estudioso afirmou à Lusa que continua a investigar o assunto e que o seu editor projecta editar a obra em Espanha e na Holanda, onde há uma tese que refere que navegadores holandeses terão também avistado costas australianas antes de Cook.

Para Peter Trickett, porém, foram os navegadores portugueses que “exploraram e cartografaram efectivamente as costas australianas, bem como parte substancial das da vizinha Nova Zelândia”, com base quer nos mapas, quer nos primeiros achados arqueológicos em meio marítimo.

(via Lusa – RTP)

Nota Prévia

É uma verdade reconhecida que os descobrimentos marítimos do século XV foram o grande pórtico da Idade Moderna. A penetração no Oceano Atlântico, começada ao redor de 1420, permitiu a exploração da costa africana que terminou com a chegada de Bartolomeu Dias ao Cabo da Boa Esperança (1488). Em tentativas que decorrem nesse intervalo, descobriram-se os arquipélagos da Madeira, Açores, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, além de mais ilhas sonhadas pela imaginação do tempo. A busca de terras nas direcções Norte e Oeste, “para além da grandeza do mar Oceano” foi outro objectivo dos navegadores que traziam com eles a ânsia de dilatar o Cosmos. Esse longo processo culminou em três momentos decisivos da história universal: a chegada de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo (1492); a ligação directa entre Portugal e o Oriente, efectuada por Vasco da Gama (1498); e o achamento por Pedro Álvares Cabral da terra que veio a ser o Brasil (1500).

“The Portuguese Discoverers”, from “The Discoverers”, Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

O fotógrafo Rui Ochôa procurou captar e transmitir a forte presença portuguesa em África, Ásia ou Amesterdão que mostra num álbum que será apresentado segunda-feira em Lisboa.

Em declarações à Lusa, Ochôa afirmou que o álbum – “Portugal, tão longe” – é o “corolário” de sete anos de viagens por locais onde estiveram os portugueses nos séculos XV e XVI.

“Este álbum é corolário de sete anos de viagens a acompanhar técnicos da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1999 e 2006, em que se percorreu locais onde há património português”, disse o fotógrafo.

A sinagoga portuguesa de Amesterdão, Arzila e Safim, em Marrocos, S. João Baptista de Ajudá, no Benim, Mombaça, no Quénia, a Ilha de Ormuz no Sul do Irão, Goa, Sri Lanka ou Malaca, são alguns dos lugares fotografados.

“Eu tinha um dupla missão. Por um lado a parte técnica, fotografar o monumento como ele é, de cima, de baixo, este ou aquele pormenor, e depois a vertente mais jornalista que é o que eu sou”, explicou.

“Nas minhas fotografias tive sempre esse cuidado, que tem a ver com os afectos e é uma característica minha: há sempre pessoas nas minhas fotografias. Em cerca de 90% das cerca de 200 fotografias do livro há uma presença portuguesa, é uma coisa muito típica em mim”, disse.

Entre os monumentos portugueses dos séculos XV e XVI figura a Igreja do Santo Rosário em Dacca, construída pelos frades agostinhos portugueses.

Percorrer estes locais emocionou o fotógrafo, que gostava, “entre muitas coisas”, de ser historiador.

“Várias vezes senti um grande orgulho de ser português. Não só pela presença portuguesa que nestes sítios continua a ser muito forte, até nas populações”, observou Ochôa, citando o exemplo de Malaca.

“Num bairro de pescadores, de malaios, que nem sabem se calhar onde é Portugal, choram ao ouvir o hino de Portugal e eu ouvi cantarem o fado de Coimbra, com sotaque mas cantaram”, recordou.

Segundo o fotógrafo, “a presença portuguesa é muito forte” jogando-se ainda o chinquilho e outros jogos tradicionais portugueses.

“As pessoas ao verem-me com a máquina acercavam-se de mim e vinham dizer-me que tinham um apelido português como Rodrigues, ou outro. Eles vêem Portugal como uma segunda pátria”, referiu.

Um dos locais mais visitados é a estátua de S. Francisco Xavier “onde vão milhares de jovens, turistas e religiosos”.

A Fé Cristã, segundo o autor, foi uma das “coisas boas” que os portugueses deixaram naquelas paragens, ao lado de outras, pois “somos capazes do bom, do melhor e do pior”.

Este “apego” a Portugal deve-se ao facto, segundo Ochôa, de “os portugueses não terem apenas passado, mas permanecido, deixado sementes, terem-se miscenizado com as populações locais”.

Em Malaca, onde, entre outros monumentos, existe o Convento de S. Francisco, os portugueses são conhecidos como “cristangues”.

O álbum, que será apresentado no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, é constituído por 300 páginas.

“A abrir há o poema `Força Albuquerque` de Miguel Torga que fala rigorosamente para as minhas fotografias. Imaginei um design muito rico para ele”, disse.

Além do poema de Torga, “Portugal, tão longe” conta com um texto de Emílio Rui Vilar, presidente do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian, e um de Eduardo Lourenço que Ochôa qualificou como “uma pérola”, além de um texto do próprio contextualizando as fotografias com notas e histórias das viagens.

“Todas as fotografias têm uma legenda feita por mim. Este não é apenas um álbum para ver, é também para ler”, frisou.

Rui Ochôa referiu ainda que é sua a concepção editorial do livro, um projecto que lhe ocupou dois anos a pensar e a perspectivar.

A apresentação do livro na Gulbenkian estará a cargo do artista plástico José Guimarães.

(via Lusa – RTP) 

Página seguinte »