O fotógrafo Rui Ochôa procurou captar e transmitir a forte presença portuguesa em África, Ásia ou Amesterdão que mostra num álbum que será apresentado segunda-feira em Lisboa.

Em declarações à Lusa, Ochôa afirmou que o álbum – “Portugal, tão longe” – é o “corolário” de sete anos de viagens por locais onde estiveram os portugueses nos séculos XV e XVI.

“Este álbum é corolário de sete anos de viagens a acompanhar técnicos da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1999 e 2006, em que se percorreu locais onde há património português”, disse o fotógrafo.

A sinagoga portuguesa de Amesterdão, Arzila e Safim, em Marrocos, S. João Baptista de Ajudá, no Benim, Mombaça, no Quénia, a Ilha de Ormuz no Sul do Irão, Goa, Sri Lanka ou Malaca, são alguns dos lugares fotografados.

“Eu tinha um dupla missão. Por um lado a parte técnica, fotografar o monumento como ele é, de cima, de baixo, este ou aquele pormenor, e depois a vertente mais jornalista que é o que eu sou”, explicou.

“Nas minhas fotografias tive sempre esse cuidado, que tem a ver com os afectos e é uma característica minha: há sempre pessoas nas minhas fotografias. Em cerca de 90% das cerca de 200 fotografias do livro há uma presença portuguesa, é uma coisa muito típica em mim”, disse.

Entre os monumentos portugueses dos séculos XV e XVI figura a Igreja do Santo Rosário em Dacca, construída pelos frades agostinhos portugueses.

Percorrer estes locais emocionou o fotógrafo, que gostava, “entre muitas coisas”, de ser historiador.

“Várias vezes senti um grande orgulho de ser português. Não só pela presença portuguesa que nestes sítios continua a ser muito forte, até nas populações”, observou Ochôa, citando o exemplo de Malaca.

“Num bairro de pescadores, de malaios, que nem sabem se calhar onde é Portugal, choram ao ouvir o hino de Portugal e eu ouvi cantarem o fado de Coimbra, com sotaque mas cantaram”, recordou.

Segundo o fotógrafo, “a presença portuguesa é muito forte” jogando-se ainda o chinquilho e outros jogos tradicionais portugueses.

“As pessoas ao verem-me com a máquina acercavam-se de mim e vinham dizer-me que tinham um apelido português como Rodrigues, ou outro. Eles vêem Portugal como uma segunda pátria”, referiu.

Um dos locais mais visitados é a estátua de S. Francisco Xavier “onde vão milhares de jovens, turistas e religiosos”.

A Fé Cristã, segundo o autor, foi uma das “coisas boas” que os portugueses deixaram naquelas paragens, ao lado de outras, pois “somos capazes do bom, do melhor e do pior”.

Este “apego” a Portugal deve-se ao facto, segundo Ochôa, de “os portugueses não terem apenas passado, mas permanecido, deixado sementes, terem-se miscenizado com as populações locais”.

Em Malaca, onde, entre outros monumentos, existe o Convento de S. Francisco, os portugueses são conhecidos como “cristangues”.

O álbum, que será apresentado no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, é constituído por 300 páginas.

“A abrir há o poema `Força Albuquerque` de Miguel Torga que fala rigorosamente para as minhas fotografias. Imaginei um design muito rico para ele”, disse.

Além do poema de Torga, “Portugal, tão longe” conta com um texto de Emílio Rui Vilar, presidente do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian, e um de Eduardo Lourenço que Ochôa qualificou como “uma pérola”, além de um texto do próprio contextualizando as fotografias com notas e histórias das viagens.

“Todas as fotografias têm uma legenda feita por mim. Este não é apenas um álbum para ver, é também para ler”, frisou.

Rui Ochôa referiu ainda que é sua a concepção editorial do livro, um projecto que lhe ocupou dois anos a pensar e a perspectivar.

A apresentação do livro na Gulbenkian estará a cargo do artista plástico José Guimarães.

(via Lusa – RTP) 

Anúncios