Não se falava de outra coisa, nos últimos tempos. Nesse domingo, aos nove dias de Março do ano de 1500, ia partir a primeira grande armada para a índia, com uma Embaixada d’El-Rei D. Manuel de Portugal para o Samorim de Calecut.

– Treze naus reunidas num só ano foi obra, sim senhor! – confirmou Luís Pires.

– El-Rei não se poupou a despesas para a ter pronta antes de Março – o capataz não queria ficar fora da conversa daqueles homens ricos.

O mercador mais velho sorriu:

– E nós também não. A nau, comandada aqui pelo capitão Luís Pires, foi paga por nós e ainda teremos de dar parte da carga que trouxermos a Sua Majestade…

– Mesmo assim o lucro que tereis com as especiarias vos há-de compensar com muita vantagem, meus senhores!

– Mas muitos homens hão-de morrer na empresa e, quanto a isso, não há lucro que pague a miséria das mulheres e dos filhos que ficam ao deus-dará – lançou-lhes de longe uma mulher vestida de negro.

– Nã tem dúveda! – disse o velho que emendava umas redes de pesca. – Mesmo quando os homens volvem sãos e salvos, são sempre as mulheres e os filhos que mais sofrem, deixados ao abandono durante anos. Depois andam por aí a pedir e a roubar!

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, p.3

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