Gonçalo riu-se e, puxando Mateus por um braço, virou no Arco dos Barretes para a Rua da Confeitaria, onde ainda havia muitas mulheres nas bancadas cobertas por panos brancos muito limpos, chamando os compradores com os seus vivos pregões a oferecer-lhes pinhoada, nogada, marmelada e laranjada, bem como toda a sorte de conservas, por entre os enxames de moscas, mosquitos e abelhas que ferravam como danados e que as tendeiras sacudiam com panos, sem lograrem afastá-los dos bolos de açúcar de cana e ovos, nem evitar que zumbissem freneticamente as asas até à morte, quando se colavam à superfície lisa e brilhante das tigelas de marmelada ou se afogavam nas espessas gotas douradas que destilavam dos bojudos potes de mel.

– É o que melhor se aguenta em longas viagens, desde que não fiquemos em calma durante muito tempo, parados sem vento no meio do mar – disse Gonçalo, distribuindo pelos dois sacos de marinheiro as quatro tigelas de marmelada e os dois potes de mel que tinham acabado de comprar, após duro regateio, pois o moço começava a assustar-se por ver como as moedas, que horas antes lhe pareciam uma fortuna, se escoavam por entre os seus dedos como areia da praia. – O meu pai contava-nos, a mim e à minha mãe, que na passagem da Guiné, quando isso acontecia e o calor apertava, o mel e a marmelada azedavam, a manteiga até fervia e todo o comer da nau se estragava.

 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 14, 15

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