Todo o povo de Lisboa quisera participar na despedida da armada de Pedro Álvares Cabral e o extenso areal da praia do Restelo, assim como os campos em volta quase desapareciam sob os pés de uma imensa multidão, vestida com os seus melhores trajos domingueiros, à espera de ver de perto El-Rei ou pelo menos algum famoso descobridor de que a frota ia bem recheada. Uma aragem de emoção, mais forte do que a brisa fresca de Março, trazia um arrepio aos corpos e um brilho novo aos olhos. E não era para menos, que o espectáculo merecia pena e tinta de um cronista: ancoradas ao longo da baía do Restelo, nove naus, três caravelas e uma naveta para transporte de mantimentos, acabadinhas de sair dos estaleiros da Ribeira das Naus, espraiavam as velas brancas com as vermelhas cruzes de Cristo ao centro, como borboletas gigantes de belas asas ao vento, impacientes da espera.

– Formosa Armada, sim, senhor!

– El-rei inda quer fazer tratos com esse tal Samorim de Calecut que, na primeira viagem, por pouco não matou o capitão Vasco da Gama e os seus homens?

– É que o gosto da pimenta e o cheiro da canela são mais fortes…

– Por via das dúvidas vai esta frota tão carregada de armas e de soldados que mais parece ir combater que comerciar.

– D. Manuel quer dar-lhes o recadinho: mais vale serem nossos amigos do que nossos inimigos.

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, p. 19

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