Na Ermida de Nossa Senhora de Belém acabara a missa cantada, as fanfarras soaram e fez-se um silêncio comovido e atento quando o Capitão-mor ajoelhou diante d’El-Rei que lhe entregou a bandeira da Ordem da Cavalaria de Cristo:

– Pedro Álvares Cabral, Nós muito vos recomendamos que guardeis este regimento sobre todas as cousas. Tomai este estandarte, pois sois Capitão-mor da Armada com poder de baraço e cutelo em toda a pessoa nela embarcada que vos desobedecer. Agora prestai vosso juramento, preito e menagem.

– Juro, com a ajuda de Deus, levar a cabo esta empresa como leal e fiel vassalo de Vossa Majestade, a quem sempre servirei com honra sob esta bandeira por Vós posta em minhas mãos. – Beijou a orla do estandarte e a mão do rei.

Ergueu-se, alto e magro, um rosto enérgico de trinta e poucos anos marcado pelas duras campanhas de África, os cabelos e a barba comprida acinzentando-se de cãs . O seu olhar sereno pousou sobre os capitães que, vestidos com os seus trajos de gala, assistiam de pé a respeitosa distância e acrescentou:

– O mesmo exijo a todos os meus capitães e oficiais, tendo Vossa Majestade por testemunha. Senhores, jurai seguir o rumo que eu vos traçar e obedecer-me em tudo o que vos mandar.

Um por um, os capitães e oficiais das naus fizeram os seus juramentos. Cabral conhecia e respeitava muitos deles, homens experimentados no mar, exploradores curiosos e sabedores: Sancho de Tovar, o seu sota-capitão; Duarte Pacheco Pereira, o navegador de confiança de D. João II, mandado em inúmeras viagens secretas a procurar novos mundos; Nicolau Coelho, o companheiro e amigo de Vasco da Gama; os irmãos Bartolomeu e Diogo Dias, os primeiros a dobrarem o Cabo das Tormentas e a descobrirem a Passagem entre dois oceanos; Simão de Miranda, Vasco de Ataíde e tantos outros… Comandar tal gente era um privilégio que talvez não merecesse. Sentiu orgulho e temor, mas nada no seu rosto o mostrou. 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 21, 22

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