Os gritos e correrias da multidão, que quase lhes desmanchara a formatura, alertaram Gonçalo para a chegada do rei. Por cima do ruído do mar e da gente, o seu ouvido apurado conseguia distinguir os cânticos da procissão. Em outros tempos fizera parte do coro da capela d’El-Rei D. João II e cantar continuava a ser um dos seus maiores prazeres. Na frente, sob o dourado pálio, vinha D. Manuel I com o Bispo e o Capitão-mor e todos os capitães atrás deles. Transportando relíquias e cruzes, os oito padres franciscanos que iriam fazer bons cristãos dos pagãos da Índia caminhavam descalços, mais os oito capelães das naus com o seu vigário, seguidos de toda a corte e de muita outra gente honrada, cantando e rezando com piedosa devoção. Todos se ajoelhavam à passagem do rei e das relíquias, mas os olhos dos mais curiosos, sobretudo das mulheres, não perdiam pitada e os ditos desmentiam a compostura dos corpos.

Na praia romperam as fanfarras e todas as naus dispararam salvas de artilharia. O som das trombetas, atabaques, sestros, tambores, flautas, pandeiros e até de gaitas de foles levantavam os espíritos mais melancólicos e muita gente bailava, mostrando que o coração de todos se movia entre o prazer e as lágrimas com a partida de tantos dos seus homens. Os Capitães e primeiros oficiais foram postar-se diante das suas equipagens, apenas Pedro Álvares Cabral se manteve na bancada real, junto de Sua Alteza que continuava a fazer-lhe as últimas recomendações numa voz apenas para os seus ouvidos.

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 22, 23

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