No alto estrado, ricamente alcatifado e com toldo de espessos brocados, erguido na praia para abrigar El-Rei e a Corte, D. Manuel captava de longe as emoções e o sofrimento do seu povo que no afã de o servir lhe rasgava com o corpo e a alma o caminho da Grandeza e da Memória, talvez até a senda de um Império na Esfera do Mundo. A ‘Sphera, a divisa dada anos antes pelo seu cunhado, el-Rei D. João II, depois de lhe ter assassinado a sangue-frio o irmão Diogo, fora uma ironia e um suborno daquele rei implacável para o apaziguar, para lhe calar o ódio e a sede de vingança, oferecendo-lhe o trono após a sua morte, se não houvesse herdeiro. Assim a ‘Sphera tornava-se um símbolo de uma espera e de uma esperança à primeira vista impossíveis, pois D. Manuel era o nono na longa linha de pretendentes ao trono de Portugal.

Porém ele fora predestinado, desde o seu nascimento em trinta e um de Maio de mil quatrocentos e sessenta e nove, por uma estranha conjugação de astros e por ser dia do Corpo de Deus, e o Destino se encarregara de ceifar a vida, das mais variadas formas, a todos os seus oito rivais na corrida para o trono, antes da morte – causada, segundo a voz dos rumores, por peçonha – do seu primo e cunhado, el-Rei D. João II, cinco anos antes, sem ter conseguido legitimar o filho bastado D. Jorge que, deste modo, nunca lhe poderia suceder. Por isso, D. Manuel I era muito inclinado à astrologia e, para todas as cousas de peso como as viagens do descobrimento das Índias, mandava chamar os seus astrónomos, sobretudo a um judeu de Beja, de nome Abraão Zacut, a fim de saber se lhe seriam propícias. E jamais olvidaria as suas palavras que eram a razão de estar agora ali, a despedir aquela Armada:

“– Senhor, olhei mui bem os astros e os planetas e li neles que Vossa Alteza descobrirá e subjugará grande parte dessa Índia, em mui breve tempo, porque, Senhor, o vosso planeta é grande sob a divisa de vossa real pessoa, a esphera, em que se contém os céus e a terra que serão trazidos a vosso poder, cousa que não poderia fazer el-Rei D. João II que Deus tem, inda que todo o seu reino nisso gastara, pois esta empresa está destinada a Vossa Alteza.” 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, p. 27

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