A frota navegava com bom tempo ao longo da costa, desfraldadas todas as velas, rumo às ilhas de Cabo Verde para aí fazer a aguada e seguir para o Cabo da Boa Esperança. A distância segura uns dos outros, os treze navios deslizavam na verde imensidão do mar, deixando atrás de si rastos de espumas e golfinhos. Apenas dez dias de navegação tinham dado a Gonçalo uma ideia do que seriam as penas do Inferno. Por sorte não enjoara, ao contrário de muitos outros aprendizes de navegador que haviam passado a primeira semana de viagem a lançar o estômago pela boca, até não terem mais nada para soltar senão gemidos e suspiros de angústia, fracos como “mulheres paridas” segundo caçoava o Mestre a que se juntavam chistes e graçolas dos matalotes endurecidos por outras viagens.

A nau capitânia era a maior da Armada e levava a bordo mais de duzentas pessoas das quais, tirando os principais oficiais, os padres, o cirurgião, os feitores, o barbeiro e os escrivães (com alojamentos, à parte, no castelo da popa), metade era gente do mar e o resto gente de armas, amontoando-se, cada um com a sua esteira e a arca dos parcos haveres, por baixo do tombadilho ou no diminuto espaço deixado livre pela carga de víveres e mercadorias, gaiolas de galinhas, coelhos e carneiros (para serem consumidos durante a viagem), peças de artilharia, forno e tudo o que era necessário para manter a nau em boas condições durante ano e meio. Só conseguia melhor espaço para dormir ou o direito a cozinhar os alimentos crus quem fizesse valer a lei do mais forte. Gonçalo aprendera esta lição logo no primeiro dia. 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, p. 30

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