No Domingo de vinte e dois de Março, tinham ouvido missa rezada pelo próprio Frei Henrique a que assistira o Capitão-mor com todos os oficiais e os servidores da Fazenda d’El-Rei. Com a Quaresma a aproximar-se, os padres rezavam cada vez mais missas e novenas e isso até era bom, porque dava repouso aos corpos cansados e fazia passar o tempo.

– Terra à vista! – gritou o grumete de serviço no cesto da gávea, com voz esganiçada de entusiasmo. – Terra à vista!

– É a ilha de São Nicolau, chegámos a Cabo Verde – disse Pêro Escobar, o piloto que mais vezes por ali passara, levando os descobridores em derrotas por ele só desenhadas nas cartas de marear dos seus sonhos de navegador.

Os homens correram à amurada, falando todos ao mesmo tempo. Iam talvez poder pisar terra firme, pois ali se costumava fazer a aguada, despejar os barris da água choca do calor e enchê-los com a límpida água das ilhas, carregar madeiras e alimentos frescos, enfim, estender as pernas e livrar-se por algumas horas do espaço apertado e malcheiroso da nau.

O piloto começou a dar ordens e os homens retomaram os seus postos para as manobras da passagem no canal entre as ilhas de Santiago e do Fogo. 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 34, 35

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