Foi breve a paragem, pois não levavam muito tempo de navegação e o que mais depressa se estragava era a água que ficava amarela, com mau sabor e cheia de bichos, fazendo os homens adoecer de febres terríveis que chegavam a matá-los. Embarcaram algumas viandas frescas, frutos e produtos das hortas que os colonos cultivavam, procurando criar um mundo português nestas ilhas de África cuja natureza indomável parecia querer escorraçar os intrusos. Cabral determinara, por conselho de Pêro Escobar e dos outros pilotos, navegar mar dentro, bem afastado de terra, a fim de evitar as calmarias da Guiné que lhes poderiam impedir o caminho para o Cabo da Boa Esperança. Por isso tinham-se alongado cerca de seiscentas e cinquenta léguas da ilha de São Nicolau e há já um mês que os homens não viam sombra de terra:

– Tanta água ‘tá quase a dar comigo em doudo!

– Má hora saí de casa! Antes me queria ver co’a minha mulher a rezingar, do que neste caixão malcheiroso.

– Ides assi tão fartos em começos de viagem?! Grande conta me dais de vossa fortaleza e ânimo! – O Mestre andava preocupado, pois se já estavam neste estado com apenas mês e meio de viagem, como seria ao fim de seis, oito meses de navegação? – Sois machos de pêlo na venta ou donzelas delicadas? 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 38, 39

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