Quarta-feira, vinte e dois de Abril, calhara ao Assanhado o quarto de vigia das horas de véspera no cesto da gávea. […]

A mancha escura, ao longe, alastrava no mar como uma pequena nódoa de azeite e o grumete quase saltou do cesto da gávea. Era a terra anunciada há já dois dias pelas plantas a boiar e os bandos de fura-buchos a sobrevoar a nau. E logo no seu quarto de vigia! Pôs as mãos em funil diante da boca e soltou a plenos pulmões para o formigueiro azafamado dos seus companheiros de aventura, na tolda, o brado que mais desejara lançar como o corsário dos contos que seu pai lhe contava:

– Teeeeeeerra! Teeeeeeerra à viiiiiiiiiiiista!

Foi um rebuliço na nau, de correrias à amurada, gritos e barretes lançados ao ar. Avistava-se já um grande monte e terras de cerradas florestas, bordeando praias de areia muito branca.

– Que terra é esta? É uma ilha ou terra inteira?

– Já muito naveguei e nunca vi tal lugar.

A mesma conversa tinha o Capitão-mor com o seu piloto, mas Escobar também não sabia a resposta. Cabral mandou fazer sinais às outras naus para lançarem a âncora e convocou todos os capitães e pilotos a conselho. Os escaleres baixaram das naus e caravelas quase em simultâneo, acostando pouco depois à nau capitânia e os oficiais subiram imediatamente a bordo.

Ninguém reconhecia aquela costa, nem os mais experimentados navegantes, só Duarte Pacheco Pereira, homem de confiança do falecido rei D. João II, não se pronunciou, apesar de todas as missões de descobrimento feitas ao serviço do seu Senhor. Guardava um sorriso misterioso nos lábios. Era, então, uma terra novamente descoberta para a coroa de Portugal! E apenas a um mês de distância de Cabo Verde, cabendo bem dentro dos limites portugueses do Tratado de Tordesilhas assinado por D. João II com Fernando e Isabel de Castela, em 1494. 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 40, 41

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