Um milagre da Páscoa, sem dúvida, por isso se haveria de chamar Terra da Vera Cruz e aquele alto cerro Monte Pascoal! Os escrivães registaram a descoberta, os pilotos marcaram a sua posição nas cartas de marear e os homens tiveram uma ração extra de aguardente para festejar o acontecimento. O grumete que avistara a terra, pela vez primeira, receberia mais tarde as suas alvíssaras . Para saber se era terra firme ou uma grande ilha foram cortando ao longo da costa todo o dia, avistando grandes serranias e largos rios, além de formosas enseadas que o Capitão-mor considerou mais seguras para surgir e ao sol-posto fez sinal com um tiro de berço e todos os navios lançaram âncora para passar a noite.

Na manhã de quinta-feira, avistaram muitos homens nus ao longo da praia e Cabral mandou convocou de novo todos os capitães a conselho, sendo de pronto obedecido, com o movimento dos batéis a causar espanto aos indígenas que corriam e gesticulavam, apontando para os barcos e para o céu. Cerca das onze horas, Nicolau Coelho foi mandado a terra no seu esquife a explorar a boca do rio onde tinham ancorado e tentar chegar à fala com os naturais. Quando já estava quase sobre a praia, o capitão viu avançar para o batel um grupo de homens nus, de cor avermelhada, armados de arcos e flechas. Os dez lanceiros e besteiros que levava consigo empunharam as armas prontos a disparar.

– Andam todos com as vergonhas ao léu!

– Olhai a cor da pele deles! Sou eu que estou a ver mal ou eles são pardos ?

– Sim, têm a pele avermelhada! Serão gente ou diabos? 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 41, 42

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