E Nicolau Coelho ergueu-se no batel com grandes sorrisos e muitos acenos de cabeça e de mãos, fazendo sinal às criaturas pardas e nuas para pousarem os arcos na praia. Os lanceiros baixaram as lanças e imitaram os gestos do capitão, enquanto os besteiros mantinham as armas apontadas. Os gentios lançaram os arcos para a praia e falaram aos portugueses, todavia nem Nicolau, nem o língua conseguiram percebê-los ou fazer-se entender por eles. Então, o capitão tirou a carapuça e atirou-a ao homem que estava mais perto e dois soldados fizeram o mesmo com um barrete vermelho e um sombreiro preto, logo apanhados no ar por outros dois homens nus com muitos risos e acenos. O primeiro nativo lançou, por sua vez, para dentro do batel o toucado de penas que tirou da cabeça e um fio de continhas brancas. Como não podiam desembarcar por o mar quebrar rijo na praia, Nicolau deu ordem para voltar à capitânia, a fim de fazer o seu relato ao Capitão-mor e a todos os capitães que na amurada tinham seguido o seu feito.

Na manhã de 24 de Abril, como o vento sueste trouxera na véspera fortes chuveiros e quase fizera dispersar as naus, os pilotos aconselharam Cabral a levantar âncora e fazer vela ao longo da costa, a ver se achavam alguma baía segura para aí surgir e tomar água e lenha. O Capitão-mor concordou e enviou adiante as caravelas pois, sendo mais pequenas, eram capazes de navegar chegadas a terra. Enquanto se afastavam, viram na praia cerca de setenta homens todos nus, sentados perto do rio, muito curiosos e assombrados de ver sair dos ventres de um bando de pássaros gigantes uma gente tão esquisita. As naus seguiram no rasto das caravelas e foram achá-las ancoradas dez léguas mais abaixo, num recife com um bom porto a que o Capitão-mor deu o nome de Porto Seguro e aí amainaram antes do sol posto. 

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 42, 43

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