Depois de comer, Cabral mandou chamar à nau capitânia todos os capitães com os quais se reuniu em conselho na sua câmara para onde convocara já Pêro Vaz de Caminha.

– Senhores – disse o Capitão-mor sem delongas nem rodeios –, parece-vos bem que enviemos a nova do achamento desta terra a el-Rei Nosso Senhor? Podíamos dispensar o navio dos mantimentos…

– Sem dúvida! – concordou Bartolomeu Dias. – Por certo, Sua Alteza quererá mandar descobrir melhor esta terra e saber dela mais do que nós agora o podemos fazer, por irmos de viagem para a Índia.

Todos os capitães das naus e caravelas deram o seu acordo à proposta de Cabral que perguntou ainda:

– E que vos parece tomarmos por força um par destes homens, para os mandar a Sua Alteza, deixando aqui por eles dois dos nossos degredados?

– Desculpai, meu Capitão, mas isso parece-me escusado – disse Nicolau Coelho com firmeza. – Se os tomarmos por força e os levarmos, tal feito não servirá de nada a el-Rei, pois esta gente fala uma barbaria que ninguém entende e não haverá tempo de a aprender durante a viagem, nem de lhes ensinar a nossa.

– E mesmo que falassem a nossa língua ou nós falássemos a deles – acrescentou o escrivão Caminha, dominando a sua timidez –, quando são levados à força, os gentios costumam dizer que na sua terra há tudo o que lhe perguntamos, mesmo que não seja verdade, para nos deixarem satisfeitos e de bem com eles.

– Também o creio – apoiou Diogo Dias. – Muito melhor informação poderão dar dois ou três degredados que cá ficarem a aprender a língua e os usos da terra.

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, pp. 76, 77

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