O Capitão-mor decidira que na sexta-feira, dia primeiro de Maio, a Armada inteira desembarcaria para a cerimónia da Cruz e da despedida. Os batéis de todas as naus fizeram várias viagens até acabarem de despejar as suas gentes na praia e, por fim, Pedro Álvares Cabral embarcou no seu batel com os oficiais e a bandeira que lhe dera El-Rei D. Manuel.

– Será melhor chantar a Cruz ali, acima do rio e contra o sul, para melhor ser vista de quem venha do mar – ordenou aos seus homens, mal chegou a terra.

– E com a divisa e as armas d’El-Rei de Portugal, será um bom aviso para qualquer nação que aqui queira meter o dente – acrescentou Bartolomeu Dias.

Enquanto alguns grumetes faziam a cova, o Capitão-mor com todas as equipagens e os padres foram buscar a Cruz onde os carpinteiros a tinham deixado na terça-feira, abaixo do rio. Ali, os homens a tomaram sobre os ombros e logo se formou uma procissão, com os padres adiante a cantar cânticos de louvor a Jesus Cristo e à Virgem Maria. Muitos nativos se acercaram para ver o que faziam os estrangeiros e logo alguns se juntaram ao cortejo e, metendo-se por baixo da cruz, ajudaram a carregá-la até ao sítio onde seria cravada na terra. Armado um altar junto dela, Frei Henrique oficiou uma missa cantada, acolitada por todos os padres e observada por cerca de cinquenta indígenas que se ajoelhavam e erguiam as mãos ao céu, tal como viam fazer aos portugueses.

Uraçá, O Índio Branco”, Deana Barroqueiro, Editora Livros Horizonte, Dezembro de 2001, p. 115

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