Uma nova conjuntura

Após um período de alguma hesitação, os Holandeses lançaram-se, na viragem do século, na exploração da rota do Cabo, desafiando as pretensões de exclusividade da navegação portuguesa na Ásia. Para o comércio português no Extremo Oriente, o primeiro sinal de alarme surgiu logo em 1603, pouco depois da formação da Verenigde Oost-Indische Compagnie (VOC), a Companhia das Índias Orientais. Foi nesta data que a nau Santa Catarina, carregada de mercadorias chinesas, foi apresada por uma armada holandesa no rio de Johor, perto de Malaca. A partir deste momento, a navegação portuguesa passou a contar com uma força naval concorrente que viria a revelar em breve a sua plena agressividade.

Ao longo das décadas de 1600 e de 1610, os Holandeses elegeram a Insulíndia como zona preferencial de ataque aos navios portugueses e de instalação de bases permanentes do seu império marítimo na Ásia. A região constituía o elo mais frágil do Estado da Índia que se estendia de Moçambique a Macau, estando portanto mais vulnerável à penetração do temível poderio naval holandês. A política expansionista do governador Jan Pieterszoon Coen, que advogava o assalto sistemático às posições portuguesas, veio ensombrar as tentativas de expulsão dos Holandeses do Índico Oriental, que já haviam sido ensaiadas, sem êxito, durante a primeira década do século. A fundação de Batávia, em 1619, consagrou a fixação definitiva dos Holandeses nesta região. Os estreitos de Malaca e de Sunda, que permitiam a comunicação e o acesso ao Extremo Oriente, passaram a estar sob permanente vigilância holandesa, colocando em risco o «cordão umbilical» que ligava Macau à capital do Estado da Índia e às regiões de maior presença naval portuguesa.

Em Macau, a prova de que a ameaça holandesa era real chegou da forma mais desagradável: em 1622 uma armada inimiga desencadeou um ataque frontal, com o desembarque de um forte contingente militar que por pouco não levou a melhor, não fosse a tenacidade e capacidade defensiva da população residente.

O ataque holandês, no mesmo ano em que os Portugueses perderam Ormuz perante uma aliança anglo-persa, fez soar o alarme nos centros de decisão, tanto em Madrid e Lisboa como em Goa. A iniciativa mais importante não partiu todavia da Coroa ou do vice-rei, mas da própria cidade de Macau, quando a Câmara do Senado solicitou o envio de um capitão-geral, acompanhado de uma força militar que pudesse assegurar a defesa de ataques inimigos futuros, que já se anunciavam. A primeira tentativa de nomeação de um fidalgo para este cargo, que na prática significava equiparar Macau à maior parte das posições portuguesas na Ásia, ocorrera em 1615, por iniciativa régia. Francisco Lopes Carrasco fora o nome escolhido para o ofício, mas a feroz oposição dos macaenses havia condenado a iniciativa ao fracasso. Em 1623, a nova conjuntura político-militar atenuou o enraizado espírito de autonomia de Macau e permitiu a aceitação de um capitão-geral, na pessoa de D. Francisco Mascarenhas. No entanto, a cidade parece ter-se rapidamente arrependido da sua decisão, já que tanto este fidalgo como os seus sucessores no cargo suportaram a firme oposição do Senado da Câmara, que invariavelmente se queixava a Lisboa dos abusos de autoridade e permanente interferência nos assuntos internos da cidade, alegadamente cometidos pelos capitães-gerais.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Os Anos da Tormenta – Macau e a Crise de Meados do Século XVII”. Encontros de Divulgação e Debate em Estudos Sociais, Nº 5, Jan.- Jun. 2000

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