O comércio do Japão: da crise à ruptura

Ao mesmo tempo que a evolução da China lançava a apreensão sobre os efeitos da turbulência político-militar em Macau, os Portugueses assistiam com igual preocupação ao degradar da sua presença no Japão.

A missão da Companhia de Jesus no arquipélago, que florescera de modo espectacular nas últimas décadas do século XVI, corria agora sérios riscos de extinção. Se na China era a desagregação de um poder político tradicionalmente centralizado que causava preocupação, no Japão era precisamente o oposto, ou seja, a unificação do poder, que constituía a ameaça à influência cristã no território. Ironicamente, os Portugueses haviam contribuído para acelerar este processo, com a introdução das armas de fogo. A missionação jesuíta, iniciada de forma brilhante por Francisco Xavier, lograra obter dividendos do processo de centralização iniciado por Oda Nobunaga, mas a expansão do Cristianismo tornou-se a breve prazo um obstáculo a esse mesmo processo. Com Toyotomi Hideyoshi e, sobretudo, com Tokugawa Ieyasu, os efeitos políticos e sociais do proselitismo católico tornaram-se insuportáveis. Para agravar a situação, a União Ibérica facilitou a entrada de elementos das ordens mendicantes no Japão, o que lançou a discórdia e a rivalidade no seio da comunidade cristã local e motivou o aumento do descrédito da missionação.

Macau devia muito à posição privilegiada que os Portugueses ocupavam no Japão. A cidade era a principal base de apoio ao trabalho missionário no arquipélago e a ligação comercial entre Macau e Nagasaki permitia o florescimento de um trato que se contava entre os mais lucrativos e menos arriscados de toda a Ásia portuguesa. A evolução política no Japão afectou inicialmente apenas a vertente missionária da presença portuguesa no país, mas viria a curto prazo a prejudicar as actividades mercantis. Por outro lado, o controle que as autoridades japonesas tentavam aplicar ao comércio com Macau teve, entre outros efeitos, o de aumentar o endividamento dos mercadores da cidade aos seus credores japoneses. Em resposta, o apresamento dos navios portugueses em Nagasaki chegou a ser utilizado como forma de forçar o pagamento das dívidas que, no início da década de 1630, eram já insustentáveis. D. Gonçalo da Silveira, que neste ano foi enviado de Macau ao Japão para amenizar as relações, foi retido como forma de pressão para o pagamento dos débitos.

Havia ainda a considerar a interferência das Filipinas no Japão, que não se limitava à questão missionária. Em 1628, o governador de Manila enviou uma expedição ao Sião, como represália por danos sofridos anteriormente às mãos dos siameses. O ataque a um junco japonês desencadeou imediatamente um conjunto de medidas por parte das autoridades nipónicas, a mais importante das quais foi um embargo à navegação, tanto espanhola como portuguesa. A competição holandesa dificultava ainda mais o comércio Macau-Nagasaki, tanto pelo ataque directo aos navios portugueses como pela concorrência de preços.

Curiosamente, à medida que a situação se agravava e que a hostilidade japonesa aos missionários apressava a ruptura, os mercadores de Macau conseguiam recuperar parte do seu vigor comercial. O trato atingiu valores recorde em 1636 e 1637, em boa parte devido a uma manobra astuciosa que lhes permitiu diminuir drasticamente a sua dependência dos credores japoneses: o recurso aos «queves», ou mercadores/ corretores chineses, que lhes passaram a conceder importantes empréstimos. O encerramento do comércio japonês era contudo inevitável, lançando receios em Macau de que, sem as ligações privilegiadas ao Japão, a cidade deixasse de interessar aos mandarins chineses, que se poderiam voltar para os Castelhanos ou para os Holandeses.

Em 1638, o alegado envolvimento dos missionários na revolta de Shimabara concedeu às autoridades japonesas o pretexto para o definitivo corte de relações com os Portugueses. Os capitães que então se encontravam em Nagasaki, D. João Pereira e D. Francisco Castelo-Branco, foram presos, tendo sido posteriormente libertados para comunicarem a decisão da ruptura irrevogável. Apesar de todos os avisos em contrário, a cidade de Macau ainda tentou um último esforço de envio de uma embaixada, cujos membros foram executados na sua quase totalidade. Consumava-se assim a perda do comércio japonês, obrigando os macaenses a uma reordenação geral dos seus tratos, na procura de mercados alternativos que compensassem esta quebra.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Os Anos da Tormenta – Macau e a Crise de Meados do Século XVII”. Encontros de Divulgação e Debate em Estudos Sociais, Nº 5, Jan.- Jun. 2000

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