Uma cidade isolada

A conquista de Malaca pelos Holandeses, a 14 de Janeiro de 1641, consumou o processo de isolamento de Macau das estruturas portuguesas do Estado da Índia. Desde há algum tempo que as comunicações entre Goa e o Extremo Oriente deparavam com dificuldades crescentes, mas Malaca, embora entrincheirada num importante aparato de fortificação, permitia aos Portugueses manter um ponto de apoio vital à navegação. A queda da cidade, que coroou o avanço imparável dos Holandeses na Insulíndia, agravava os problemas de Macau, numa altura em que os efeitos do encerramento do Japão eram evidentes e a turbulência política na China atingia uma fase decisiva, que viria a culminar com a queda da dinastia Ming, em 1644.

As estruturas asiáticas portuguesas debatiam-se com uma profunda crise, motivada com uma vasto leque de causas, a menor das quais não era certamente a concorrência agressiva de Holandeses e Ingleses nos mares do Índico. A aclamação do Duque de Bragança como D. João IV, que antevia a paz com as potências do Norte da Europa, desencadeou porém um processo penoso, longo e doloroso, ao longo do qual o Estado da Índia acabaria por ser sacrificado aos interesses atlânticos. De facto, a paz definitiva com os Holandeses só chegaria na década de 1660, numa época em que o império asiático português estava já reduzido a uma sombra do que havia sido anteriormente.

Em Macau, o processo da «Restauração» foi desencadeado apenas em Maio de 1642, com a aclamação entusiástica do novo monarca. Este facto anunciava algum desafogo no relacionamento futuro com Batávia, mas assinalava igualmente a degradação súbita das relações com Manila. Os contactos foram cortados e, embora nunca viesse a ocorrer a transposição das Guerras da Restauração para o Oriente, temeu-se durante muito tempo que Macau fosse perdida para Castela, quer por via da conquista, quer pela do aliciamento aos macaenses, pois estes viram-se privados de qualquer socorro ou apoio de Portugal durante períodos de tempo consideráveis.

Após o choque inicial motivado pelo encerramento do comércio do Japão, os mercadores de Macau reorganizaram rapidamente as suas rotas comerciais: Cochinchina, o Golfo de Tonquim, Timor e, sobretudo, Macassar constituíam alternativas viáveis ao trato japonês. O golpe final sobre as pretensões de restaurar o comércio nipónico desfizeram-se com o fracasso da embaixada de Gonçalo Sequeira de Sousa que, após vários adiamentos, chegou a Nagasaki em finais de Julho de 1647. Os avisos que os portugueses de Macau haviam dado ao embaixador confirmaram-se: as autoridades japonesas só autorizariam reatar as ligações comerciais se Portugal desse garantias formais de que não tentaria reintroduzir a religião cristã no arquipélago; como D. João IV nunca quis dar esta garantia, os contactos diplomáticos estavam condenados ao fracasso.

A situação política da China era aparentemente clara: os Manchus tomaram Pequim em 1644 e depuseram a dinastia Ming, inaugurando a nova dinastia Qing. Um novo poder na capital imperial não significava contudo a submissão de toda a China. Pelo contrário, o controle sobre as regiões meridionais vinha ainda longe, tanto mais que a resistência aos Manchus aglutinava-se em torno de pretendentes à restauração dos Ming, primeiro na pessoa do regente Lu e depois na do príncipe Yongli. Macau deu o seu apoio a esta causa, tendo enviado um corpo expedicionário, sob o comando de Nicolau Ferreira, que em 1647 desempenhou um papel decisivo na defesa da cidade de Guilin. Por esta altura, germinaram projectos de aliança formal com o príncipe Yongli, com o baptismo de vários elementos da sua família, tendo alguns elementos mais entusiásticos anunciado a instauração de uma monarquia cristã na China. O entendimento com as novas autoridades do país, tanto para salvaguardar o trabalho missionário como a posição de Macau, ganhava contudo cada vez mais adeptos.

A província do Guangdong/Guanxi alinhava claramente pela resistência aos Qing, que conseguiram todavia conquistar Cantão em 1650, desferindo um golpe que condenava ao fracasso as pretensões de restauração dos Ming. O grande foco de oposição passou a ser a organização mercantil e corsária que dominava o Mar da China Meridional, que era então liderada pelos Zheng. Aproveitando a inabilidade e falta de experiência dos Manchus no que tocava às regiões costeiras e aos assuntos marítimos, esta organização passou a agir em clara sintonia com as restantes comunidades chinesas ultramarinas, nomeadamente as do Fujian, conseguindo obter uma clara autonomia face aos desígnios do novo poder em Pequim.

Macau conseguiu, apesar de toda a instabilidade, sair relativamente incólume desta tormenta. O período de tréguas entre Portugal e os Países Baixos (1644-1653) facilitou a tarefa. Um dos problemas criados pelo isolamento da cidade era a turbulência no interior da sociedade macaense, com o agudizar das tensões entre a população e os capitães-gerais. Um destes, Sebastião Lobo da Silveira (1638-44) colocou literalmente a cidade em pé-de-guerra e um seu sucessor, D. Diogo Coutinho Docem (1646), foi assassinado pela população. Os vice-reis de Goa, não podendo lançar mão de recursos financeiros e de um corpo militar para impor a autoridade dos capitães, mostravam-se impotentes para castigar os culpados. Aliás, por esta altura, a capitania de Macau era indesejada pelos fidalgos da Índia, dados os riscos inerentes à viagem e ao desempenho do cargo.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Os Anos da Tormenta – Macau e a Crise de Meados do Século XVII”. Encontros de Divulgação e Debate em Estudos Sociais, Nº 5, Jan.- Jun. 2000

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