Os anos críticos

Na década de 1650, a situação de Macau agravou-se. O fim das tréguas com os Holandeses significava o recomeço das hostilidades e do isolamento de Macau. Em 1653, o surgimento de um navio holandês que rumava a Cantão fez soar o alarme, tendo os Portugueses enviado imediatamente uma delegação junto das autoridades chinesas para garantir que a recepção não lhes fosse favorável. O relacionamento com Manila constituía igual motivo de preocupação, pois os Castelhanos nunca permitiram a normalização das relações entre as duas cidades, apesar da autorização concedida pelo vice-rei D. Filipe de Mascarenhas para o restabelecimento das ligações comerciais.

O principal factor de instabilidade para Macau era a evolução política da China. A organização mercantil e corsária liderada pelos Zheng, que controlava as regiões costeiras do Fujian e Guangdong e as ligações aos arquipélago nipónico, o Golfo do Tonquim e o Sião, até à Península Malaia e às Filipinas, saíra reforçada após a captura de Zheng Zhilong pelos Qing. O seu filho Zheng Chenggong, a quem os Portugueses chamavam Coxinga, assumiu a liderança e, apesar de todas as tentativas de aliciamento por parte das autoridades chinesas, demonstrou de forma cabal as suas pretensões de total autonomia do poder central, reforçando o poder da organização e intervindo inclusivamente no jogo político de regiões interiores da China, mediante a aliança com diversos generais e senhores da guerra locais. Em meados da década tornara-se evidente que o conflito era inevitável. Logo em 1652, o Imperador emitiu um édito de evacuação de várias cidades costeiras, numa manobra destinada a privar Zheng Chenggong das suas bases de apoio, mas esta medida não chegou a afectar Macau.

No horizonte vislumbrava-se uma aliança tácita entre os Qing e a VOC holandesa, grandemente prejudicada pelo poderio marítimo dos Zheng. Em 1659, Zheng Chenggong cometeu o seu maior erro, que lhe viria a ser fatal: a tentativa, que se saldou num fracasso, de conquistar Nanquim. Os Qing retomaram a ofensiva e recomeçaram o processo, desta vez sistemático, de isolamento do adversário, mediante a evacuação de zonas costeiras e ilhas do Fujian. Em 1661, Coxinga atacou onde menos se esperava, desembarcando na Formosa de onde expulsou os Holandeses. Este ataque terá possivelmente salvo Macau da conquista holandesa, uma vez que inviabilizou o plano de ataque à cidade com a forte armada que havia saído no ano anterior de Batávia com o objectivo de expulsar os Portugueses da região de uma vez por todas.

Em Agosto de 1661, o Imperador emitiu uma ordem geral de evacuação de toda a população costeira para o interior, reforçada no ano seguinte com a proibição total de navegação. Zheng Chenggong ficava assim isolado e entrincheirado na Formosa, e Macau corria o risco de desaparecer pura e simplesmente do mapa. Todos os chineses que se aqui se encontravam foram obrigados a retirar-se para Cantão e a cidade foi literalmente encerrada e bloqueada durante os anos de 1662 e 1663. Só no ano seguinte foi possível, mediante as habituais manobras de diplomacia e suborno junto das autoridades provinciais de Cantão, prorrogar a evacuação forçada dos moradores e aliviar, ainda que ligeiramente, o bloqueio, o que permitiu inclusivamente a chegada de um novo capitão-geral vindo de Goa.

A morte de Zheng Chenggong e o enfraquecimento da organização que chefiava não acarretou o levantamento dos éditos de 1661 e 1662. Sobre Macau continuaram a pairar os espectros da fome, da evacuação e de todo o tipo de extorsões e arbitrariedades por parte dos mandarins de Cantão. Em 1666, a tensão atingiu o seu ponto máximo, quando a Porta do Cerco foi encerrada pelos chineses, cortando os abastecimentos aos moradores. Chegou a estar fechada durante mais de 40 dias consecutivos, o que causou carências de toda a espécie na cidade. Em Abril do ano seguinte, o capitão-geral Simão Gomes da Silva ordenou a mobilização geral, preparando-se para uma alegada ofensiva chinesa, que nunca veio a ocorrer. Pouco depois, o apertado bloqueio a Macau distendeu-se e a cidade pôde, pelo menos provisoriamente, respirar de alívio.

Os Portugueses compreenderam que o destino de Macau jogava-se em Pequim, junto da corte imperial, e não em Cantão, onde a instabilidade político-administrativa não permitia a segurança desejada. Foi então preparada em Goa uma embaixada à capital chinesa, com a missão de normalizar as relações e levantar os embargos que recaíam sobre Macau. Apesar de todas as dificuldades, a comitiva chefiada por Manuel de Saldanha atingiu finalmente Pequim em finais de Junho de 1670. Apesar da cortesia com que foi recebida, os seus efeitos práticos foram quase nulos. Era totalmente inadequado, de acordo com as regras do protocolo chinês, que uma embaixada estrangeira se dirigisse ao Imperador com solicitações ou pedidos de ordem prática. Os jesuítas credenciados junto do jovem imperador Kangxi compreendiam perfeitamente esta situação, que foi motivo de não poucos atritos com os representantes de Macau presentes na comitiva.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Os Anos da Tormenta – Macau e a Crise de Meados do Século XVII”. Encontros de Divulgação e Debate em Estudos Sociais, Nº 5, Jan.- Jun. 2000

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