2. A conquista portuguesa

A expedição de Diogo Lopes de Sequeira assinala um notável alargamento do horizonte dos interesses portugueses no Índico. A fronteira, que o vice-rei D. Francisco de Almeida alargara até Ceilão, era agora empurrada para Leste. O receio da competição castelhana levou D. Manuel a agir rapidamente, procurando estabelecer relações comerciais com a metrópole malaia, o que certamente favoreceria os interesses portugueses em caso de conflito com Castela.

Inicialmente bem recebido pelo sultão, Diogo Lopes de Sequeira apercebeu-se da crescente hostilidade que a sua presença suscitava junto da poderosa comunidade guzerate, muito pouco receptiva à concorrência comercial que os recém-chegados estavam dispostos a promover. A comunhão ideológica entre os guzerates e a elite política do sultanato acabou por minar a posição dos portugueses. Diogo Lopes de Sequeira foi obrigado a regressar a Lisboa, deixando vários dos seus homens no cativeiro.

A 1 de Julho de 1511, o novo governador, Afonso de Albuquerque, ao comando de uma forte armada, fundeou ao largo de Malaca. Desta vez, os portugueses apresentavam-se em posição de força, tendo sido feitas várias exigências à cidade. Contudo, a pressão dos guzerates e dos sectores mais influentes da corte malaia (nomeadamente o bendahara, ou primeiro-ministro) não permitiram o sucesso dos negociações. Pouco dado a intrincadas manobras diplomáticas, Afonso de Albuquerque decidiu-se a tomar Malaca, após algumas hesitações por parte de capitães mais reticentes. A seu favor contava com o apoio velado de quelins e chineses, que viram nos portugueses uma oportunidade única para sacudir a hegemonia guzerate e obter uma posição privilegiada junto do novo poder político.

Após renhidos combates, o sultão fugiu com a sua família e a sua corte, aguardando que os vencedores, como era tradição na Ásia do Sueste, saqueassem a cidade e regressassem ao seu país de origem. Foi com amarga surpresa que verificou que os intrusos, que inicialmente haviam sido tomados por “gente branca do Bengala” mas que começavam a ser conhecidos como “francos” ou “frangues”, não só não partiram como ergueram uma torre de pedra, sinal inequívoco de que tinham vindo para ficar. Talvez lhe servisse de consolação saber que os seus sucessores, os sultões de Johor, rivalizariam com determinação com os portugueses de Malaca, e que a sua intervenção seria decisiva para a conquista da cidade pelos holandeses, 130 anos mais tarde. Contudo, nada mais lhe restava senão retirar-se para o Pago, nos arredores, vindo posteriormente a fixar-se nas ilhas de Bintão, um pouco a Sul.

O momento era de retumbante vitória para os portugueses. A tomada de Malaca, inimaginável até há tão pouco, abria agora o caminho para o Extremo Oriente. O Sião, a Cochinchina, o Tonquim e as costas da China, mas sobretudo o Arquipélago Oriental estavam ao alcance dos navios portugueses, pelo que se procedeu ao rápido reconhecimento e avaliação de várias regiões.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas” In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

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