Conquistada Malaca, havia que decidir o seu futuro. Era a segunda vez que Afonso de Albuquerque procedia ao assalto de uma cidade, sem que as circunstâncias a isso obrigassem e sem ordens específicas de Lisboa nesse sentido. A primeira fora Goa, no ano anterior, e seguir-se-iam Ormuz e Adém, sem sucesso neste último caso. Era evidente que o governador possuía ideias bem precisas sobre o que deveria ser a presença portuguesa no Oriente: dotar o futuro Estado da Índia das mais importantes escápulas do comércio marítimo do Índico, garantindo uma sólida posição no contexto das rotas inter-asiáticas. O que estava em causa já não era obter facilidades comerciais junto dos poderes locais para o tráfico de mercadorias para Lisboa, mas sim garantir a Portugal um lugar no seio dos lucrativos tráficos asiáticos, mediante a conquista dos principais nós da complexa rede comercial do Índico e uma política naval agressiva e eficaz.

O projecto de Albuquerque obrigava a uma aprendizagem dos meandros da vida comercial do Índico. Em Malaca, as informações prestadas tanto por chineses como por quelins revelaram-se preciosas, acelerando o conhecimento de rotas, portos, produtos e mercados. Um mercador quelim chamado Nina Chatu desempenhou aqui um papel de primeiro plano, tendo sido integrado na administração portuguesa da cidade (2).

Desde o início, os novos senhores de Malaca rodearam-se de grandes cuidados no sentido de manter inalterada, na medida do possível, a estrutura do sultanato malaio. O objectivo era apenas mudar a chefia da cidade, esperando que a antiga prosperidade pudesse permanecer sem grandes sobressaltos. O interesse português incidia unicamente sobre o porto e as ligações marítimas de Malaca; os territórios controlados directamente pelo sultão foram deixados intactos, acabando mais tarde por integrar os domínios de Johor. Era, contudo, necessário que, passado o choque inicial, os mercadores voltassem a afluir. A comunidade guzerate retirou-se, acompanhando o sultão na fuga, mas quelins e jaus regressariam paulatinamente, sendo seguidos por outras comunidades. O governador tomou então um conjunto de medidas, antes de se retirar para Goa: levantou uma torre de menagem com uma ligeira fortificação, mandou cunhar moeda, promoveu a boa ordem administrativa e reorganizou a estrutura da cidade. Assim, o bendahara, que fora uma espécie de primeiro-ministro no sultanato, passou a ser o chefe e representante dos mercadores quelins e foi entregue a Nina Chatu, e o tumenggung, anteriormente o responsável pela segurança, foi transformado no líder da comunidade muçulmana e entregue a um mouro de Lução. Afonso de Albuquerque iniciou ainda uma série de contactos diplomáticos com reinos vizinhos, nomeadamente os não-muçulmanos, de modo a medir a aceitação da conquista de Malaca. Por fim, deixou Rui de Brito Patalim no comando da fortaleza, antes de regressar à Índia, em Janeiro de 1512.

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(2) Cf. Id., “Nina Chatu e o comércio português em Malaca”, Ibid., pp. 487-508.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas” In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

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