3. Uma cidade autónoma

O Estado da Índia, designação por que passou mais tarde a ser conhecido o conjunto de possessões da Coroa portuguesa, sob o comando de um vice-rei ou governador sediado em Goa, era essencialmente uma rede de fortalezas e feitorias, por vezes com pequenas parcelas de território anexo, dispersas num vasto espaço que se estendia de Moçambique ao Extremo Oriente. Em oposição ao que ocorria no Índico Ocidental, Malaca era a única fortaleza portuguesa para lá de Ceilão, exceptuando as pequenas fortificações na costa do Coromandel, no Maluco e, mais tarde, em Amboino. Este facto explicava-se inicialmente com a existência de uma menor tensão militar, uma vez que a resistência à penetração portuguesa que se verificava no Malabar, no Golfo Pérsico ou no Mar Vermelho não se fazia sentir aqui. Por outro lado, a própria presença oficial portuguesa era nesta região bastante mais fluida, contentando-se, no essencial, com o controle de Malaca. No Golfo de Bengala, nos reinos continentais da Ásia do Sueste, no Mar da China Meridional estendiam-se vastas regiões onde a Coroa portuguesa não exercia o mínimo controle, tornando-se assim o espaço privilegiado à proliferação de aventureiros, mercenários e renegados, que trocavam as fileiras das guarnições portuguesas pela busca de uma vida mais promissora.

Malaca foi, assim, o grande centro irradiador da influência portuguesa na Insulíndia e no Extremo Oriente, uma espécie de segunda capital do Estado da Índia, já que, na prática, a grande distância que a separava de Goa conferia-lhe uma autonomia alargada. Foi de Malaca que António de Abreu partiu, logo após a conquista, ao reconhecimento do arquipélago, e foi igualmente daqui que se procedeu à descoberta do Extremo Oriente. Esta função de pólo difusor é especialmente visível no que toca à missionação. Malaca constituiu uma base missionária de primeira grandeza, de onde partiam os elementos das diversas ordens que foram gradualmente chegando e repartindo entre si os espaços de evangelização: os Franciscanos, dispersos pelos reinos continentais e em diversas ilhas, nomeadamente em Java; os Dominicanos, presentes no Arquipélago Oriental, sobretudo no Maluco, em Amboino e, mais tarde, em Timor; os Jesuítas, concentrados na China e no Japão; finalmente, os Agostinhos, os últimos a chegar, fixaram-se sobretudo no Bengala.

Nas primeiras décadas do século XVI, o poderio naval português era suficiente para garantir a segurança de Malaca e, de um modo geral, a da navegação nos Estreitos. Inicialmente, os portugueses preferiram manter contactos privilegiados com os reinos não-muçulmanos da região, o que facilitava os abastecimentos à cidade e as trocas comerciais, para além prevenir eventuais investidas por parte do sultão deposto. Contudo, e à medida que o processo de islamização avançava em Java, em Samatra e noutras regiões e os sultanatos assumiam um papel político crescente no contexto regional, não lhes repugnou o estabelecimento de acordos e alianças com potentados muçulmanos, numa estratégia de adaptação às realidades e circunstâncias locais.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas” In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

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